O ENFORCADO

Trago nas mãos as notas de uma lira despedaçada. É a música dos loucos dedilhando saudades e sonhos perdidos. Reviro o mundo pelo avesso, pendurado sob o céu e amarrado a pedras para não despencar em queda alada. Deixo as ruinas para alcançar os corpos invisíveis de um tempo impreciso, sufocando sonhos, criando outros, num pêndulo invertido. Sendo, sou minha aparencia em pólos inconsiliáveis. Sendo, desmancho verdades e construo devires. Bem vindo ao (des)mundo do (in)verso.

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Sábado, Dezembro 27, 2008
 
LÁ VAI

Faz tempo não escrevo nada aqui.
Deixo coisas soltas nos cadernos, em restos de papel, rascunhos.
Esse ano que se foi deixou marcas em mim, de uma falta absurda de tempo para a poesia.
É preciso silêncio para escrever. E vontade, e falta de medo, para gritar fora do papel.
Vou me despedindo desse ano, despedindo-me de parte de mim que vai se desfazendo aos poucos.

Estou indo para 2009.

Lá vamos nós.

L. F. Calaça

Segunda-feira, Novembro 03, 2008
 
DESENLACE

na correnteza que arrasta
minhas pernas comidas
meu corpo sem tato
minha voz sufocada
meu grito calado
meus olhos já tristes
teus beijos sem doce
minha boca de fel
meu sexo dócil
meus sábios carentes
minhas armas pendendo
perdendo o rumo
perdendo o amor.

como amar na tempestade
no turbilhão do desencontro
não me encontro em sua cama
não me encontro em seus braços
não me reconheço agora
neste desenlace.

poesia quando sofro
e só tenho a dor em mim.
prefiro perpetuar meu silêncio
não gritar em vão, entre grades
não suplicar por mim mesmo
quando perdi meus olhos
e arrastei-me à margem.

esfriou-se a paixão
não sei ao certo o destino
de nossos mais de 365 dias
de nossos meses passados
quero enterrá-lo a 7 palmos
quero enterrar-me contigo
e apodrescer junto

quero a finitude inevitável
a morte do orgasmo,
o descompasso.
quero a hóstia miserável
que é carne morta e seca
e os dias paridos
e as sonolências
e sua indiferença
e meu medo de solidão.

sinto-me só, hoje, como nunca
só pois contigo não mais me encontro
e não sei onde me esqueci
me perdi num lápso
pessentimento de término
desenlace.


Domingo, Setembro 07, 2008
 
ORAÇÃO XAMÂNICA

Dança o deus índio
movendo o mundo em serpente
corpo em ritmo de êxtase
xamã-menino, feiticeiro.

Dançam os espíritos celestes
em movimento das órbitas
na volúpia dos corpos lunares
na metáfísica dos espaços vazios.

Dança a serpente suicida
através dos espelhos encarnados
o sangue, a carne e os espasmos
pulsação de vida e morte, sincronia.

Dança a estratosfera, o chão sulcado
as mão arrancando gritos da Terra
o amor desenfreado dos amantes
o sono da criança recém saída do útero.

Dança a evolução do homem,
as palpitações de cada cela, ardendo
adentrando as camadas finas da memória,
corpo-espírito, mudando de pele.

Olhos de puma alada, teu mistério é meu.

(L. F. Calaça | agora).


Sábado, Agosto 30, 2008
 
PRIMEIRAS IMPRESSÕES SOBRE O RUINAS ALADAS:



"Ao ler o livro de Calaça, um milhão de sensações explodiram dentro de mim. Uma mistura de euforia, orgulho (ao lembrar quem é o autor), inquietudes, angústias, sofrimentos, amor, dor...enfim...mergulhei naquela imensidão de palavras, letras e sentimentos, e a leitura fluiu como as águas de um rio. As frases me tocaram tanto como se pudessem entrar no meu peito e apertar com as unhas o meu coração....só Chico me fez sofrer tanto...
Todas as pessoas que lerem esse livro viajarão no seu mundo de “pequenas loucuras e alucinações”. São indagações a que todos nós comungamos. Deparei-me, hoje, lendo as Ruínas Aladas de Luiz Fernando num ônibus lotado, indo a uma aula chata e com a cabeça fervendo. Foi a forma de evasão mais prazerosa que tive até hoje. Mais eficaz do que uma mesa de bar...
Ainda faltam alguns contos para terminar, mas já me acho no direito de tecer minhas primeiras impressões... "
(Mariza Lago)


Sexta-feira, Agosto 29, 2008
 
ARREMATE

Escrever...
Fica meio que um gosto verde na boca.
Memórias, fotografias, fios de cabelo caídos.
A caixa de retalhos e recortes de jornal.
Pequeno relicário de 15 minutos.
Ser, para quando?
É impossível precisar, ser preciso.
E tem a precaução do existir,
meio camuflado, camaleônico.
Escondendo nas verduras da cena
as cicatrizes fugazes.

Escrever...
como quem amanhece sem retorno
sem contorno, forma, verbete.
Apenas num corte sutil
estilete pontiagudo.
Memória de amanhã.
Precisando de hoje.
Sempre.

(L. F. Calaça | 29/08/2008)

Domingo, Agosto 10, 2008
 
POEMA DE AMOR

A idéia é amar.
Não importa de que forma.
Amar não a idéia.
Amar a forma.

Forma sobreposta.
Não amar as formas divinas,
mas apenas as divinas formas possíveis.
Amar a possibilidade de amar você.

E pouco me importa quando.
Amar apenas, quando o tempo for.
E se não for, que nas correntezas.
Sobre as pedras, ao relento, sereno.

Amar a palavra que some em sua boca
no beijo que te perpetua imensamente.
Te amar simplesmente, na quentura.
Que sobe, vibra e dança.

L. F. Calaça
(Agora).


Domingo, Fevereiro 24, 2008
 
PREPAREM-SE!

Após longa espera o meu primeiro livro, o RUÍNAS ALADAS, está pra sair.
Ainda está em fase de editoração. Essa é a primeira versão da capa que eu bolei.
Provavelmente deverá sair ainda até o fim desse semestre.
Quero todos os meus amigos e leitores lá, para um grande encontro poético.

L. F. Calaça

Sábado, Fevereiro 23, 2008
 
NOSSA INTIMIDADE

Nossos corpos.

Não preciso mais das explosões nucleares
- somos uma estrela branca.
A paixão sehue seu delicado momento
calmamente fluente como riacho.

Amor, vamos dormir o sonho sereno
mãos repousadas no coração macio,
vida que vibra ritmada.

Te amar é bom.

(L. F. Calaça | 23/02/2008)

Terça-feira, Janeiro 22, 2008
 


Terça-feira, Janeiro 15, 2008
 
9 MESES

Neste tornado, a dor e o parto
redemoinho de nossos desejos
sem os instrumentos cirúrgicos
apenas as carícias de nós dois.

Nove meses e estamos fecundados
um pelo outro, semente germinada
o corpo, o caule, ramificações...
folhas e pêlos que se entrelaçam no muro.

Somos nós, meu amor. E os livros
foram o princípio que nos uniu sem intervalo
apenas o momento de um abraço no cinema
e a convulsão dos corpos em revoada.

Somos dois iguais e diferentes
na complementariedade dos rumos de idéias dissonantes
que meu amor seja oceano pra sua alma
e seu beijo, meu veneno feiticeiro.

E assim, somos serpentes entrelaçadas
no coito morno dos desertos
onde suspira os sonhos no arriscado
delírio de sermos um, sacralizados.

(L. F. Calaça | 15/01/2008)

Segunda-feira, Dezembro 31, 2007
 
QUAL É O MOMENTO PARA SE COMEÇAR A TERAPIA?

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior


É curioso. Todos os gestaltistas que ouvi defendem a terapia para terapeutas. Os psicanalistas também. Eu acho importante. Fundamental. Mas sempre me pergunto: Qual é o momento para se começar a terapia?

Penso algumas outras coisas também:

- A função da terapia é fazer com que a pessoa possa lidar de forma mais autônoma com sua própria vida. Quem já faz isso, precisa de terapia?

- A terapia é indicada pra quem sobre de angústias - o “sofrimento psíquico” dos psicanalistas. As angústias existenciais, no entanto, não serão dissolvidas na terapia. Aprendemos nela a lidar melhor com as angustias, e saber nos posicionar de forma ativa, ou da melhor maneira possível, diante delas.

- A terapia deve ser um lugar de acolhimento, em que a pessoa se sinta a vontade para se abrir no encontro com o outro. É um chamado para um encontro. E se a pessoa não se sentir assim, confortável? Lidar com o desconforto, trabalhar esse desconforto, se torna tema. Isso pode servir para expandir a percepção do cliente para outros momentos em que se depara com desconfortos, mas pode também virar uma tática de convencimento do terapeuta da importância de se fazer terapia. Às vezes essa figura pode ser artificial, produto do próprio contexto artificial da terapia. Talvez seja preciso se pensar se aquele é o momento certo.

- “A psicoterapia se alimenta dos psicólogos, autofagicamente”. (Isso foi uma sacada que me foi mostrada por dois professores meus). Psicoterapeutas TÊM DE passar por psicoterapia. Um imperativo da profissão. Nisso vejo alguns lados da moeda, polaridades:

1) Experimentar a posição de cliente para poder compreender melhor esse lugar, e saber lidar com as angústia daquele que, no futuro, virá te procurar - eu gosto e concordo com esse argumento;

2) Um caminho complementar para o aprendizado do modo de ser terapeuta - concordo parcialmente com esse aspecto, pois é possível que aprendamos e reproduzamos alguns “maus hábitos”, por pura reprodução, quando não se tem senso crítico, impedindo a emergência de um estilo próprio - defendido tanto pela Laura Perls;

3) Uma forma de se preservar a prática da clínica indiviual, por questão de mercado e campo de atuação profissional, para que todos tenha a possibilidade de exercer a clínica - descordo completamente, vendo nisso uma posição mesquinha e anti-ética.

Minha crítica é em parte resistência (por que não? também sou humano e filho de Deus. Terapia é cara pra chuchu e nem sempre é possível escolher o terapeuta com quem se acha mais confortável em função disso) e luta pela minha liberdade de escolha (meu eu sartreano se revoltando!).

Sei que essas observações parecem “racionalizações” minhas. Mas também são meus insights e reflexões críticas sobre a questão. Não consigo aceitar passivamente um imperativo que remete aos tempos de Freud. Acredito veementemente em outras formas, talvez até mais criativas, de estar consigo mesmo, ampliar a awarness, posicionar-se sobre o mundo e ir em busca de saúde.

A poesia, a música, a arte, a natureza, amigos, namoro, amar, fazer sexo… Todos são ou podem ser extremamente terapêuticos. A psicoterapia não é a única, nem a melhor. É algo que nem medicina halopática e homeopática, acumpuntura, massagens curativas, rituais xamânicos, candomblé, etc etc. Existe a técnica, existe o saber teórico por traz da técnica, mas os resultados são alcançados diferentemente para cada um, em seu processo individual, segundo os significados e crenças que cada um traz em sua vida. É isso!

Defendo a psicoterapia. Escolhi AGORA, começar uma. Já tinha me dado conta antes, em alguns momentos de sua necessidade, mas não serei escravo dela. Preso por minha liberdade, até mesmo pela liberdade de escolher estar preso, imobilizado, em minhas angústias. Só assim creio que poderei de fato aprender a dar meus passos e escolher meus caminhos, ou abrir outros no meio da mata cerrada.

Não sei… Me tornei indisciplinado e questionador. Não sei se isso é bom ou ruim.

Se um dia eu vier a ser professor direi tudo isso a meus alunos. Defenderei o direito deles de escolher o momento certo, ou escolher outros caminhos. Se não fizer isso, acho que estarei sendo incoerente comigo mesmo e com o que eu acredito ser o que me move na Gestalt.

__________

* Texto desenvolvido a partir de e-mail encaminhado por mim a Luciana Aguiar, quando trocamos impressões sobre o tema, em 28 de dezembro de 2007.



Domingo, Dezembro 30, 2007
 
FIM DE ANO EM RETROSPECTIVA

Difícil me lembrar de todas das coisas que me aconteceram esse ano. O ENFORCADO não serve muito como memórial de minhas andanças, mas é minha lata de lixo de idéias e fragmentos de dias. Mas, lá vai meu pequeno sumário:

Janeiro:
- Minha irmã casou. Aos poucos está se encontrando com Fábio em São Paulo. Viajaram para a terra do tango.
- Fui a Itacimirim, pra casa de Ana, fazer grounding na praia às 7 da manhã, ver uma tartaruga desovar...

Fevereiro:
- Fiz minha primeira viagem de avião, para acompanhá-la nos pós-lua de mel. Achei São Paulo uma cidade feia, mas com lindos sebos.

Março:
- Residencial em Praia do Forte. Momento de sair de dentro da casca de ovo. Um primeiro passo. Jogeui-me na lata do lixo e renasci.

Maio:
- Feira do livro... Iniciei um novo momento na minha vida. Abri um novo ciclo com perspectivas de futuro. Não estou mais só, mas precisei tomar decisões e tornar as coisas mais claras. Antecipei parte dos próximos 3 anos de minha vida, falta a outra parte. O amor em construção.

Setembro:
- Fiz minha segunda viagem. Rio de Janeiro. Cidade linda, rodeada por morros que cortam o horizonte em negras cores. Literatura e Gestalt. Me senti em família. Tive momentos de grande meditação e encontro comigo mesmo. A arte no papel. O mar como consolo.

Outubro-Novembro.
- Dor e esperança. Sentimento contraditórios e medo da perda. Minha avó se foi. Sentimos saudade. A casa está vazia sem ela.

Novembro:
- Conheci Luciana. Fim de semana tumultuado, mas com abertura para uma amizade a distância. Um outro encontro com o Rio. Mar e azeite de dendê.

Setebro-Dezembro:
- Permaneci o resto do ano todo na pesquisa. Agradeço muito a Ana pela paciência, mas sei que sou um tanto rebelde e nada me agrada totalmente, se não for feito com paixão e um tanto de espírito de transgressão. Aprendizado e amizade cultivada em silêncio e poesia.

Dezembro:
- Redescubro o giz de cêra. Ateliê de sentimentos em imagens.
- Assisti a palestra do Mahfoud. Fantasia e encantamento. A psicologia ainda tem um futuro, eu acho. Pelas vias alternativas da compreensão, de encontro e dos significados que emergem da memória como herança.

2008...



- Meu ano da morte do Tarot. Não tenho medo. Mudanças são necessárias e estou crescendo.
- Estágio no Aristides.
- Início da travessia já em curso.

(Eu, 30/12/2007)

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007
 
SINCRONICIDADE E PSICOLOGIA SOCIAL
ENTRE KAFKA E EHRENFELS


No final deste ano, enquanto eu ia para as aulas de Tópicos Especiais em Psicanálise IV, eu levei os “Diários” de Franz Kafka, na intenção de ler algum fragmento por mim selecionado em minhas “leituras pontuais”.*
Para quem não sabe, entrei no curso de psicologia devido ao meu interesse por literatura**, em especial por influencia dos textos de realismo fantástico de Franz Kafka – dotados de grande impacto e teor existencial(ista), ao meu ver.
No curso de Psicologia, desenvolvi grande interesse pela Gestalt em suas duas manifestações: tanto pela Psicologia da Gestalt do Wertheimer, Koffka, Kohler, Goldstein e Lewin, como pela Gestalt-Terapia do Perls e cia, por achar que, em abos os casos, era possível a mim fazer links entre Psicologia, Filosofia, Arte e, por que não, Literatura.
Pois bem.
A algum tempo encontrei um texto em PDF sobre divergências entre Kafka e Brentano. O conteúdo desse artigo não diz respeito ao causo em questão que quero trazer, mas, só por curiosidade, Brentano foi o “avô” da Fenomenologia de Husserl e “bisavô” da Psicologia da Gestalt.
C. von Ehrenfels é apontado nos livros de História da Psicologia, como um dos precursores do movimento gestaltista, ao trazer discussões sobre “qualidades gestaltistas”, especificamente no que diz respeito à música. Uma música, mesmo sendo transposta para outros tons, conseguiria ser identificada como um todo, posto que “o todo é diferente da soma das partes”.
Pois bem.
Nos Diários de Kafka, eis que descubro uma citação, um tanto quanto cômica, acerca do Ehrenfels, que me levam a concluir – ou ao menos inferir – interesses deste por questões sociais.
A psicologia da Gestalt, quando “migrou” para os EUA, durante a 2ª Guerra Mundial, acabou desenvolvendo muitos trabalhos na área de Psicologia Social, em especial por Kurt Lewin, em suas articulações entre a Teoria de Campo e os fenômenos de dinâmica de grupo. E, também o Metzger escreveu um livro sobre preconceito (que eu consegui, em espanhol).
Pois bem.
Trago até vocês o trecho do diário de Kafka, que contem a citação sobre o Ehrenfels, desde aquele tempo, um gestaltista psicólogo social:



Não me responsabilizo pela ironia kafkiana, nem pelo teor do comentário sobre Ehrenfels sobre mistura das raças. Kafka era judeu e viveu num contexto de grande tensão a anti-semitismo. Em todo o caso, é curiosa a situação, e dá o que pensar.

L. F. Calaça | 27/12/2007 – www.o_enforcado.blogger.com.br



P.S.: Não usarei citações bibliográficas pois isso não é um artigo científico, mas apenas um comentário de um curioso, maníaco obsessivo que não tem nada melhor a fazer além de ler o livro de “introdução ao gestaltismo”, que provavelmente ninguém mais irá ler, pelo menos não como forma de distrair-se do tempo.


____________
* técnica desenvolvida por mim – ou pelo menos assim denominada por mim – de encontrar citações que me interessam apenas abrindo o livro aleatoriamente e fazendo vagar meus olhos entra as linhas do texto sem verdadeiramente ler coisa alguma.

** assim como Dante Moreira Leito, um dos pioneiros da história recente da Psicologia no Brasil, que desenvolveu estudos sob influencia do gestaltista Fritz Heider, além de ter trabalhado articulações entre Psicologia e Literatura, tema que muito me interessa.


Quarta-feira, Novembro 28, 2007
 
INDIVÍDUO E SOCIEDADE?
Uma tentativa de síntese.*


Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior




Estar diante do outro, um estranho, é defrontar-me com a sensação de fragilidade. O outro me aprisiona com o olhar. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”. Diante do outro, estranho, não consigo deixar de ser eu mesmo, em minha dança encenada de papéis, sempre tropeçando, sempre gaguejando, sempre fingindo uma segurança ou uma meninice que não tenho verdadeiramente. O estranho é o que melhor e mais apto está para me julgar de forma incondicional, sem pestanejar, aprisionando meu presente, cristalizando minha existência num olhar, num adjetivo, num conceito, numa crença concebida na superfície que demonstro ser, como lago. Diante do outro, conhecido, quando creio mininamente conhece-lo, tento ser eu memso. Mas caio na dúvida se o que sou ou creio ser realmente condiz com a imagem que faço de minha figura. Diante do outro conhecido tento ser o que para mim e mais fácil ser, diante do outro, na experiência que dele tenho a partir dos encontros travados anteriormente. Sempre me será um estranho, assim como eu a ele. Mesmo na cotidianeidade, nos dias partilhados em intinmidade, sempre serei um pouco desconhecido – para ele e para mim mesmo – e cada nova revelação será um choque. O estranho se revela a mim, como eu a ele, na parcialidade de um ângulo, de um momento passageiro, num instante de lapso, e cada novo encontro vai deixando indícios, sinais, que confirmam ou negam a primeira impressão. Mesmo assim o olhar do outro me congela em meu movimento em direção ao próximo segundo.





Não tentarei ser comportado. Admito, desde o início, que não segui os passos indicados. Não fui sistemático e rigoroso, não fiz resenhas de capítulos, não li tudo o que devia(?) ter lido. Partirei de minhas impressões gerais, agora, após finalizado o percurso de um semestre, de forma corajosa ou suicida.

Comecei o disciplina descrente na possibilidade de eu vir a “aceitar” uma perspectiva sociológica do humano. Não vim com muitas esperanças e tinha medo do previsível. Vim cheio de preconceitos, e não sei, admito, se eles foram desfeitos. Há algo ainda em suspensão, uma tentativa de formular um opinião, o receio de expressá-la.

As aulas consistiram para mim como exposições de teses para as quais eu já vinha com todas as minhas antíteses, de corpo fechado. O único movimento que tive foi o inicial estranhamento manifestado na leitura do primeiro texto, o qual fui expositor, que questionava a relação de intimidade típica da organização familiar, em contraposição à vida errante e democrática, da sociabilidade e dos jogos de papéis vivido nas cidade, no “mundo real” da polis. Desde este princípio me coloquei como estrangeiro, lembrei-me de minha viagem a São Paulo no início do ano e do meu desagrado narcísico diante do que não era meu próprio espelho.

As outras aulas mantive um posição de ouvinte (des)interessado. Tentei prestar atenção no que emergia, as falas que surgiam das leituras, os colegas – até hoje desconhecidos – que emitiam suas opiniões. Todos emitindo seus pontos de vista, para uma questão que acho sem solução. Indivíduo e sociedade? Indivíduo ou sociedade? Indivíduo-sociedade?

Papéis, herança, identidade. Somos nossa casa, nossa família, nossa cultura local e provinciana? Ou somos a polis, as identidades múltiplas, fluidas, negociáveis na pólis. O exercício da teatralidade de papéis assumidos e dissolvidos a cada momento, a cada devis, em que manipulamos o mundo em que somos manipuláveis, como fantoches ou ventrílocos. Não sei. Nessa abertura para o mundo, nos dissolvemos, perdemos a condição de pessoa, nos tornamos anônimos e invisíveis. Quinze minutos de fama, como diria Andy Warhol. Apenas 15 minutos. De resto, somos como os ratos, numa massa que corre em busca da própria sobrevivência, como em Josefina, conto de Franz Kafka.

E as cidades? Haverão realmente espaços para negociações – o grande mercado mundial de homens especialistas -, ou os papéis estão dados e legitimados por nós mesmos. Associações entre o burguês e o proletário, numa relação mutualista, cada qual se apropriando do que lhe é bem pra uso e abuso. Os trabalhadores em equipes que surgem e se desfazem após a realização de uma tarefa, sem que se espere mais nada, sem que se conheça sequer algo do outro. Lembro-me das minhas andanças pela cidade, a pé e de ônibus, desconhecidos que sentam-se um ao lado dos outro ou se esbarram, evitando o olhar constrangedor.

As palavras agora são pronunciadas de forma encenada, na política midiatizada, em que se finge santidade e competência, bastando apenas parecer o que não se é. O tempo das cirurgias plásticas, do clareamento dental, da moda sempre em mutação, dos escândalos que se tornam espetáculo de contemplação e êxtase, melodramas mexicanos, tango. Ninguém é o que realmente aparenta ser. E todos escondem algo por traz do sorriso.

E nas relações em grupo repetimos esses mesmos falseamentos de realidade. Criamos ficção de um mundo improvável, criamos crenças e dogmas em que possamos nos segurar, utopias e “ismos” para remediar o mal estar que a civilização instaura na impossibilidade de saciedade do desejo, na perda do verdadeiro desejo, sublimado ou transformado em sintoma e compulsão. Nesse ponto, só consigo ver a arte como salvação, na minha crença herética de que minha voz solitária me basta. Mas esse mundo não é o mundo dos poetas. É o mundo das caixas registradoras, e precisamos conquistar o pão com o suor do próprio rosto.

E me pergunto, de que serve tantas discussões teóricas? De que serve a universidade que nos prende nas utopias de um mundo possível de salvação. Unindo forças por uma coletividade que é tão abstrata quanto a geometria das formas platônicas. O mundo inteligível das idéias. A sociedade formada de homens, caminhando movida por uma mão abstrata, maquinaria pesada ou tecnologia digital, irrealidade e virtualidade, digitalizando-nos, transformando-nos em porcentagens e estatísticas.

Mas todo um discurso de contrariedade e tudo isso é, também, um ensaio de intelectualismo que vai do nada ao nada. Ainda assim somos humanos, vivemos em agrupamentos, trabalhamos e funcionamos, construímos vidas e vias, traçamos rumos que desejamos trilhar, planejamos e nos projetamos existencialmente, ou simplesmente nos deixamos levar pela correnteza. Despertar para a visão disso tudo é necessário. Uma saída ensaiada da caverna, mas será que realmente saímos do estado de cegueira e entorpecimento? Ou cairemos novamente numa outra cegueira de luminosidade ofuscante onde os contornos das formas são as mesmas sombras projetadas?

Quando digo isso tento pensar no que lemos e discutimos. Tantos pontos de vista, tantos sinais de fumaça sinalizando conceitos, situações, e, todos eles defendendo vieses. Também eu tenho meus vieses, e será que realmente preciso lapidá-los, ou incorporar novas formas, para ser eu mesmo, para ser um outro em auteridade? Será que há essa auteridade ou nos suportamos? A diferença ideológica às vezes é tão mais marcante e conflitiva que as aparentes. Todos nós temos nossas ideologias, nossa forma “melhor” de ver o mundo, nossas verdades, e defendemos como se fossem reais.

Tolerar ou não tolerar? Será que esse meu falatório tem sentido, ou é uma grande confusão? Não sei. Desde o início apontei para minha descompostura intencional. E a tentativa de síntese é falsa. Estou apenas sumariando. Citando. Discorrendo livremente, na liberdade que acredito ter nesse espaço aberto à reflexão. Mas bem posso estar enganado, e o previsível seja o que se espera. Estou tentando me arriscar. Nada tenho a perder. Isso até parece uma provocação ou uma pirraça.

O que mais me resta? Posso tentar fazer mais algumas correlações com o que eu já trazia como idéia. Posso emitir opinião sobre a vivência do grupo. Posso omitir meus sentimentos e acreditar que tudo transcorreu conforme o previsível. Mentira! Trago incômodos.

Entre nós há, e se reproduz, o desconforto. Situação atípica. Uma presença. Algo que destoa do resto do grupo. Ela estava lá, fazendo comentários e perguntas incômodas, aparentemente sem nenhuma conexão com o que ela trabalhado. Às vezes ingênua, outras vezes confrontando a figura central de facilitadora. Senti prazer em ver essa situação se instaurar, pois mostrou o quanto estamos conformados com os papéis dados, e domesticados, e que o imprevisível é desconcertante. Acho que é o lugar da loucura no mundo. É motivo de risos e desconforto, quando não censurado e reprimido. Nada se fala, fica a situação velada, mas eis que emerge e se cristaliza o “bode espiatório”.

E também temos aquela que na risada de deboche abre espaço para as opiniões bem fundamentadas, para as referências à filosofia alemã, o discurso sobre o desejo, o mais forte que submete o outro por prazer de gozar, o relativismo dos valores como verdade afirmada. Senti-me contente. Momentos inesquecíveis nesse período.

Como saio afinal? Não sei. Algo se moveu, mas não mudei meus pontos de vista. Quero sedimentá-los um pouco, teimar na minha ignorância e resistir à psicanálise, ao marxismo, à sociologia, à antropologia, às fenomenologias do outro homem. Mas sei-me em mutação. Já não estou mais no início do percurso. Já estou um tanto cansado das discussões que não levam a lugar nenhum, posto que dissociada da vivência real com o outro. Saio de uma turma de desconhecidos. Se exercitei meu papel nas arenas da polis acadêmica, foi por minha escolha pela omissão consentida. Nada me pereceu tão novo que não seja velho. Como exercitar a própria existência é o que me pergunto.

Não sei se isso é o bastante. Não sei se tenho mais nada a falar. Acho que é tudo o que posso emitir enquanto registro de minhas idéias e síntese de minha participação desse círculo de pessoas. O espaço, eu sei, é importante. Janelas se abrem para que articulações possam ser feitas no futuro. Eu guardei coisas em mim, que não foram ainda assimiladas. Jogo na lata de lixo de minha cachola, para depois ruminar. Sinto muito, pois tentei ser poeta, e sofista, contra a ciência dos conceitos e da busca pela verdade, defendendo o absurdo.

____________________

*Relatório das aulas da disciplina Indivíduo e Sociedade, ministrada pela profa. Sônia Bahia, no semestre de 2007.2.


Terça-feira, Novembro 27, 2007
 
MEUS SERIADOS FAVORITOS ...


...para quem NÃO tem preconceitos e
já foi para boates com goo-goo boys.



...para quem tem humor negro e
gosta de dramas domésticos estilo Familia Adams.


Segunda-feira, Novembro 26, 2007
 
LINGUAGEM E POESIA NA PSICANÁLISE:
TRÂNSITOS ENTRE LACAN E OCTÁVIO PAZ E UM OLHAR INCERTO PARA O FUTURO*


Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

O inconsciente é linguagem, na psicanálise. O homem é linguagem, posto que é ser de cultura. Essas duas sentenças, em certa medida, traduzem o pensamento psicanalítico sobre a questão da linguagem, pensada por Lacan, que, ao fazer uma releitura da psicanálise de Freud, em associação a uma perspectiva estruturalista, sugere essa compreensão do inconsciente.

Sendo o homem um ser de cultura, este se desprende da natureza de forma irreversível. Por estar imerso na linguagem, o homem cultural se diferencia dos outros animais, posto que não mais se limita a imagem e a realidade aparente, mas transcende essas duas dimensões, que passam a ser cortada pelo simbólico. Na esfera do simbólico o homem transcende a realidade e é capaz de recriá-la através da imaginação, da fantasia, erotisando o sexo, erotisando o universo, que deixa de ser um dado factual para ser um sentido.

O homem é um ser pulsional. A pulsão, por sua vez, é marcada pela linguagem, pela cultura, pelos sentidos que se criam pelo homem, no mundo que passa a ser objeto de desejo. O desejo dá sentido à existência humana. O mundo desejado, o corpo desejado, o “eu” desejado. O homem, e o mundo, são os sentidos criados e recriados pela cultura, que deixa seus registros desde os primeiros momentos da vida infantil, através do processo de socialização, da amamentação ao banho, dos primeiros passos ás primeiras palavras. Na fala o homem, então, se constitui definitivamente, único e singular, despregado da natureza.

Também Paz, em seu livro de ensaios “O Arco e a Lira”, traz essa dimensão lingüística constitutiva do homem, concebendo-o como um ser histórico. A linguagem teria sua origem num determinado momento da história da humanidade que o definiu e o diferenciou dos outros animais, sendo esse retorno a natureza impossível, pois implicaria na perda da função da linguagem, enquanto recurso de representação e abstração da realidade que, foi fundamental para o desenvolvimento das sociedades, das leis, da cultura.

Haveria nos outros animais formas de comunicação, sendo a linguagem humana diferente das outras formas de comunicação diferente em termos de nível de complexidade. Essa diferença, no entanto, é definitiva e definidora. A linguagem humana não traz apenas sinais que remetem a estados emocionais que sinalizam perigo, fuga, presença de alimento ou corte, como nos outros animais. A linguagem humana não apenas reproduz a realidade, mas a cria e recria, reconfigura através dos múltiplos sentidos e significados que emergem da palavra viva.

A dinâmica da linguagem do inconsciente se dá, na psicanálise, através dos mecanismos de metáfora e metonímia, na cadeia associativa de significantes que envolve o deslocamento da pulsão, do objeto de desejo primeiro pela mãe, a outros objetos, no mundo. Da mesma forma funcionaria o sintoma, que se utiliza do recurso da metáfora substitutiva do trauma ou do objeto recalcado por outros conteúdos secundários. A emergência desse conteúdo latente, dotado de energia pulsional, poderia se dar através de manifestações como os sonhos, os chistes, atos falhos, manifestações corporais que, como linguagem, são dotados de sentidos e serem apreendidos pelo sujeito significante.

O próprio homem é o significante da linguagem, na psicanálise, aquele que traz o sentido à fala, não sendo esta atrelada ao significado, a uma representação direta da realidade. A realidade para a psicanálise é a realidade psíquica, e não a realidade factual. A linguagem, para a psicanálise, não é protótipo do mundo, mas um novo mundo, inconsciente, subjetivo, do próprio homem, simbólico.

Em Octávio Paz, essa compreensão se aplica à palavra poética. A linguagem, na poesia, rompe a sua qualidade comunicativa, deixando de servir apenas ao objetivo de representar a realidade, para expandi-la, tranfigurá-la, trangredí-la. A palavra é impossível de ser aprisionada pelos significados definidos, por um único objeto referente. A palavra é múltipla, e múltiplo o homem, que a pronuncia, é inscrito por ela. A palavra poética define o homem em sua condição simbólica, e sua existência é imprecisão. O homem é poeta, e na poesia é servo da linguagem, é veículo na qual ela se manifesta, incorpora, torna-se realidade.

O poema constrói o povo e revela quem somos. Através da palavra poética se criam sentidos, se funda a cultura, a humanidade deixa suas marcas definidoras, sempre reelaboradas. Partindo dessa perspectiva, Paz discute o caráter social da poesia e pensa sua função como criadora de subjetividade partilhada e pessoal. O poeta escreve o poema na linguagem comum aos homens, mas o acesso dos homens aos seus significados revelados, variam a cada época. A poesia emerge tanto em momentos de crise quanto de plenitude social. Na ordem, a poesia é patrimônio de todos, comunica à comunidade ideais comuns, guia a civilização por um caminho. Na crise, a poesia se torna hermética, individualizada, voltada para uma busca incerta de nortes, de sentidos perdidos no caos. Nesses tempos, os mesmos tempos que hoje vivemos, a poesia é revelação da decadência, é alerta, é grito que se faz inaudível no meio da multidão.

A psicanálise, em sua origem nos fins do século XIX, surge como manifestação da cultura revelando o homem moderno em suas neuroses. A Psicanálise é filha da decadência do mundo moderno, e se apresenta furando o campo das ciências exatas e naturais como uma nova forma de pensar o homem, na sua subjetividade, nos seus aspectos ocultos e velados. Assim, em muitos aspectos, ela se aproxima muito mais do fazer poético, do trabalho do artista.

A linguagem para a psicanálise não segue a linha da comunicação, em sua horizontalidade, na seqüência de significados encadeados que remetem a uma realidade factual. Os traumas tratados nem sempre tem um representante no vivido, mas fantasmático, inscrito na cadeia associativa inconsciente, desejo e castração. No método criado pela psicanálise, na associação livre, as palavras emergem como na poesia, rompendo o real, pulsionalizadas, vibrando. E o psicanalista, como o poeta, é servo de seu ofício, instrumento da linguagem, xamã que inicia o cliente, o sujeito, nas artimanhas da linguagem inconsciente. O mundo é lido na psicanálise através de uma forma própria, numa linguagem para iniciados, a linguagem inconsciente.

O lugar almejado pela psicanálise, em muitos momentos, é o de reveladora, permitindo ao próprio sujeito significante da análise a possibilidade de descobrir-se, aperceber-se de um conhecimento que ele mesmo traz em sua vida. Como o poeta, o artista, o analista seria aquele que facilitaria à humanidade ver além de sua realidade cotidiana, expandindo sua visão para além dos significados corriqueiros, dos condicionamentos, dos aprisionamentos. A poesia é a palavra sem fins utilitários. A psicanálise é a revelação da loucura de todos, de cada um de nós. Mas será mesmo?

Paz aponta para o perigo do poeta se transformar em propagandista, ser manipulador das massas, num tempo atual, em que as comunidades de desfizeram e a coletividade está padronizada. Também o psicanalista, ao utilizar-se da teoria psicanalítica, pode incorrer nesse perigoso caminho. Mas serão esses poetas e analistas verdadeiramente poetas e analistas? Ou o lugar da poesia e da psicanálise é, justamente, a margem. O poeta é marginal quando traz uma nova linguagem, quando perverte os sentidos, quando cria o novo. Também o analista deveria assim proceder, no exercício da psicanálise enquanto arte de revelação. Mas será que a psicanálise realmente nos revela os caminhos incosncientes de nossa própria existência, ou nos aprisiona no Édipo, no desejo incestuoso da mãe, no medo da castração, nas estruturas de personalidade, na neurose, psicose e perversão? De que psicanálise se fala e se pratica. Que poesia estamos vendo surgir hoje?

Se estamos vivenciando uma crise dos tempos, a mesma crise de a cem anos, no caminho da decadência da Modernidade, vemos emergir como costumes o individualismo exacerbado e a cegueira de massa, do consumo, do utilitarismo. Mais se escreve autobiografias, mais se lê livros de auto-ajuda e revistas tablóides. Se consome a vida alheia e se viva a própria vida amarrada às aparências, às tiranias da imagem padronizada, tiranizada pela mídia, pela moda. A poesia se torna silenciosa, como a voz dos intelectuais, e a psicanálise corre o risco de se tornar mais um objeto de consumo, um produto fetichizado de consumo, eliciando pequenas revelações que não necessariamente transformam o sujeito em ator de sua própria vida, mas mantêm no ciclo repetitivo. Esse risco não é apenas o da psicanálise, mas de todas as abordagens psicoterapeuticas.

Mesmo assim, ainda se tem a crença e a esperança de que é possível romper a lógica convencional, instaurando uma nova lógica, através da palavra poética, que transgride os significados dicionarizados e cambiando novas dimensões de sensibilidade. Para isso, é necessário que a poesia seja acessível a todos, que haja um compartilhamento da poesia, que novas linguagens ascendam do ordinário e novos sejam os iniciados, os profetas, os loucos.

____________________

*Texto escrito para a disciplina Tópicos Especiais de Psicanálise IV, ministrado pela Profa. Clarice Bacelar. UFBA, nov. 2007.


Sábado, Novembro 24, 2007
 
É TEMPO DE MUTAÇÕES...



Terça-feira, Outubro 30, 2007
 
A DEUS

Pedra parada não forma limo...

Como esvaziar o vaso de mim?

Deixar de ser pedra e escapar do asfalto.

Não sei das coisas possíveis.

Só sei o impossível de mim.

Pedra parada, soterrada.

Ainda não sei o sentido do provérbio.

Ando amaldiçoado.

Preciso de veneno em minhas veias.

Ser pedrada na vidraça.

Meus cacos.

Pedra parada na correnteza.

Afogada.

O limo verde.

Lembrei-me do primeiro poema do mundo.

Musgo, fungo, molusco.

Já está nesse ponto.

Pedra parada no fundo.

Não-barulho.

Silêncio...

Terça-feira, Outubro 09, 2007
 


Vó, te amamos muito.

Espero que esteja descansando em paz, agora, como vovô.

Seu neto que te ama,

Nando.

Domingo, Outubro 07, 2007
 
SEM BRAÇOS



Domingo, Setembro 23, 2007
 
MEU BONECO DE MASSINHA









Terça-feira, Setembro 11, 2007
 
POSSESSÃO

para P.

Nas loucas trilhas do amor deixo meu coração inseguro. Nas loucas trilhas, me des-rumo. Nas loucas trilhas sem rumo, arrasto você comigo. Nas loucas trilhas te quero. Nas loucas trilhas, sem esperar te sufoco. Nas loucas trilhas arranco minhas retinas, cego, insâno, vampiro. Nas loucas trilhas preciso. Nas loucas trilhas, impreciso passo, te desejo insensatamente. Nas loucas trilhas me afogo. Nas loucas trilhas, seu quarto. Nas loucas trilhas, seu cheiro. Nas loucas trilhas, a boca. Nas loucas trilhas, nossas pernas brigando, entre pelos e incoerências. Nas loucas trilhas choramos, desejando a fusão dos núcleos. Nas loucas trilhas sou eu, sou tu, somos nós, nóis cegos, indesatáveis.

Nas loucas trilhas de água, veneno e escamas, sangue e linfa, fervendo minha calmaria, nos possuimos um ao outro, nas loucas luas de nossas noites interrompidas.

(L.)

Segunda-feira, Setembro 10, 2007
 
ANGÚSTIA IMEDIATA

"Preciso dar um rumo a minha vida", diz minha consciência.
"Ainda sou uma criança", diz minha inconsciência.
"Preciso arranjar um emprego", diz minha consciência.
"Não sei fazer nada", diz minha inconsciência.

Consciência e inconsciência falam separadamente em minha cabeça.

"Preciso de um amor incondicional", diz meu coração.
"Preciso de um beijo, longamente", diz meu corpo.

Corpo e coração fazem parte de um mesmo conjunto.

O que fazer, afinal?

Sinto angústia diante da vida, que não passa verdadeiramente.

Tento transmitir em palavras aquilo que não consigo fazer escorrer de outra forma. Vivo minha vida estancada.

Como se fosse uma barragem...

Sou a barragem estancada de meu corpo, fragmentado, inundado, desejando livrar-me do peso de mim mesmo.

Escrevo por desespero de vida e morte.

Se volto a dizer-me é porque estou condenado a esta solidão involuntária.

O que me resta fazer?

(suspiro).

(L. F. Calaça | Agora)

Domingo, Setembro 09, 2007
 

(Arco íris, Autor desconhecido.)

A cidade na noite escura cor de violeta
Sua pele, olhos e lábios cor de sangue
No beijo azul do céu e o mar moradia
Lambendo a relva verde, primavera de Monet
Ou deserta passagem entre a seca brilhante
Montanhas queimando no horizonte
Chama incendiando o vazio
de volta à mesma ilusão.

(Dia do Arco-iris | L)


Sábado, Setembro 08, 2007
 
CARTA DOS CORÍNTIOS

fico pensando aqui
eu, com minha angústia
se realmente vale a pena
esperar...
sem saber ao certo o impreciso
quando o corpo que fala não tem resposta
e o beijo, no silência, não deixa marcar precisas

falar de amor entre dois corpos
é aventurar-se em reflexões metafísicas
dois corpos que se movem no espaço
sem se tocar realmente
projeções astrais, cartas de tarô, runas
quiromancia das linhas aneladas
e das interrupções de segmento

meu coração chora angústia desmedida
cansado de lutar com o vazio de nós dois
das incompatibilidades de gens
das loucuras mudas de minha alma
do espírito em ebulição correnteza abaixo

não sei se posso te amar, verdadeiramente, pois
só sei caminhar na medida da incondicionalidade
na paixão avassaladora dos loucos
que tateiam no escuto o próprio corpo
despedaçado, entre cordões de aço, pescoço
como se precisasse dedilhar as chamas da paciência
sem resposta alguma

escrever meus sonhos nas paredes vermelhas
pedir preces aos santos de guarda
não sei a que me presta esta louca insenstez
senão à tentativa vã de me manter ainda vivo
ou de persistir. persistir. insistir. teimar!
e dói assim mesmo a vida, não poderia ser diferente
minhas incertezas, crises, lapsos. não me provoque!
sou andarilho das finitudes.
e meus passos dizem adeus.

(Hoje, agora. | L.)

Terça-feira, Agosto 28, 2007
 
POEMA GARIMPADO

Procurando sem querer possíveis referencias a mim no google - e crente de que só encontraria meus próprios blogs e comentarios que esporadicamente faço a meus amigos, eis que encontro essa pérola: um poema meu, garimpado de algum lugar obscuro de meus blogs.

O site onde publicaram é esse:

FOTOGRAFIAS, POESIAS e um tantinho de prosa

tentei deixar um comentário agradecendo mas não consegui. Se alguem conseguir me avisa.

Abração à Liz - ou seja lá qual for o nome do criador do blog.

L. F. Calaça

Quinta-feira, Agosto 23, 2007
 
DIANTE DO OUTRO



Segunda-feira, Agosto 20, 2007
 
NÃO ME LEVEM A SÉRIO!

E a semana vai começando, meio como quem não quer. É isso! Vou me arrastando um pouco, um pouco/muito entrevado, qua quase não consegue sair da cama. Se precisarem de mim, gritem, por favor, pois sou meio distraído e posso não me dar conta. Minha mãe disse que eu só não perco a cabeça porque está presa ao pescoço. (Ela fala a mesma coisa, mas substituindo minha cabeça por minhas "partes pudentas"). E lá vou deixando o que vier na minha cabeça aflorar na tela do computador, cheio de erros de ortografia, pois não olho pra tela quando estou digitando. Minha cabeça está coçando, porque meu cabelo está grande. Preciso cortar para ficar gatinho.,

É isso. Vou mudar a roupa para poder comprar uma cadeira de rodas. Sempre quiz ter uma cadeira de rodas. Mas não é pra mim não. Sindrome de Professor Xavier.

Besos.

L.

Domingo, Agosto 12, 2007
 


GET REAL!

Gostei desse filme.
Embora as legendas sejam péssimas!

Quinta-feira, Agosto 09, 2007
 
POESIA SONORA

a poesia arrebentou meus timpanos
com o grito-mundo das angustias ternas
na delicada liquidez das dores turvas
do olhar sobre as águas de um lago
espelho móvel de transitória fluidade
das danças arcaicas de meus desejos

a poesia, palavra fera de mil dentes
fez a carne tremer sem tato, num arrepio
e fiz-me trânsito sem freio, sem faixas
nas brancas nuvens de meus sonhos
de sombra refletida em meus olhos
ilhadas gotas-coágulos de meus beijos

a poesia é nome indefinível, inominável
daquelas que só se conhece por magia
desenterrando charadas e feitiços de simpatia
como morrendo aos poucos, como gemendo
em noites de insônia e quase pânico
de quase ver a alma escapar do corpo
ganhando vida própria. em cavalgada.

L.

Quarta-feira, Agosto 08, 2007
 


Domingo, Agosto 05, 2007
 


Domingo, Junho 24, 2007
 


JUDAS E A CORDA

Qual é a sua forma
entre estas duas faces
que são e não são
que pendem na sombra de um vaso
de cerâmica, de cera, de barro?

Qual é a sua face
nesse deslisar através da parede
imóvel, estático, inerte...

Qual é a sua forma,
quando a fase da lua é minguante
e o amor se dilui num cálice mudo?

(L. F. Calaça | 24/06/2007)



Sexta-feira, Junho 22, 2007
 
COMO PODE?

solenemente
abro minhas amarras
nas desconjunturas da vida e
decifro codigos submersos.
aliviando tensões em estado de letargias
guilhotinando ilusões parabrisas
e atacando, teimosamente
os tiroteios que saem de minha
cabeça cor de silêncio.

L. F. Calaça
22/06/2007.

Segunda-feira, Junho 11, 2007
 


LIVROS

Composição:
Caetano Veloso

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.


Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.


Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:


Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.


Domingo, Junho 10, 2007
 


CASULO TEMPORÁRIO

Deixo aqui este link. Sem pedir autorização de sua dona ("Bê Alves" ou Ana Cecília).
Um presente para os passantes. Um relicário.Espero que do casulo surja uma bela borboleta de asas brihantes. Entre retratos de família e o dia que se faz em pequenos passos.

Casulo Temporário.



 


NÚPCIAS

Cheiro de saliva e sexo.
A noite.
Beijos leves.
Dois corpos de veludo.
Mãos.
Vultos.
Esfíncter
Aliança de pele.

(10/06/2007)

Sexta-feira, Junho 08, 2007
 
ESFERAS ARISTOTÉLICAS



Terça-feira, Junho 05, 2007
 
POEMA DO CORPO

Luto com meus demônios alados
que abem suas vaginas vermelhas
e devoram minhas pernas de cobre
paralisando os trilhos do trem

A estrada de ferro retorce na convulsão
paranóia de santos encapuzados
escondendo o rosto sob véus de seda
enlouquecendo mulheres virgens e devassas.

Lambo as cicatrizes da guerra santa
em nome do meu nome e do meu sexo
rompendo as correntes da mulher pantera
que escorrega entre o cálice e o grito.

Devoto meus cabelos aos renegados
que atravessam nus o purgatório
enquanto ambalam meu corpo-feto
abortado na última madrugada.

(08/01/2007)



 
OS POLIÉDROS DA JUSTIÇA...

Nada além da mortalha.
Palavra câncer deflorando olhos.
Sensação de náusea, o obscuro.
Tentando me equilibrar nas pulsações.
Arritmia cardíaca, dilúvios.
Meu sangue escorrendo em correnteza pulsação.
Palavras rarefeitas. Clarividência e prisma.
Ofuscando as lampadas com o abismo.
Escrevo trocadilhos e aleluias derívas.
Sem esboço, som ou predicativos.
Devoro meus ossos sepultados.

(30/04/2007)



Quinta-feira, Maio 24, 2007
 
ÓAI !

As pulsações degoladas
os para-ráios
as brisas respirando adeus
pegando os restos de comida
e as espumas de saliva
com o veneno dos sexos
e os silêncios imersos em cem mil incêndios.

As Luas são miragens retilantes
metamorfoses transplantadas
das dores mortas e fadadas
ao estado alterado e decomposição,
a quem se destina a idéia original
que cria mundo autistas.

Já foi!
O tempo navega em seu deserto.

(L. F. Calaça | hoje)













Série Ligas, Wesley Duke Lee

 
SINAL DE MERCÚRIO

O poeta
respira.
- o mundo.

O poeta
suspira,
fundo.

O poeta
transpira
(n)o escuro.

O poeta
mira
o (ab)surdo.

E as coisas
seguem.
... sem rumo...

(L. F. Calaça | hoje)

Quinta-feira, Maio 10, 2007
 

Mosaico de Rodrigo de Haro.

Terça-feira, Maio 01, 2007
 


Domingo, Abril 29, 2007
 
eu me sinto um pouco morto
n sei como renascer
a realidade pesa às vezes
de forma insuportável
viver n é leve
n sei como nascer de novo

tenho dificuldade com mudanças
n sei, estou morto agora
até pra mim mesmo

n consigo respirar
meu corpo pesa
muito

queria voltar pro meu ovo
repor minhas cascas
ficar quietinho
quentinho

acho q tenho q me desenhar fora do ovo agora
mas tenho medo de morrer
de frio
n posso ter certeza

eu queria gritar
me sinto apodrescendo
estou no escuro
n tenho coragem
estou gritando por dentro
e parece q estou desabando
n tenho coragem pra olhar

n sei
só preciso de um olhar
que me guie e me dê segurança
sabe o apego?
preciso de apego
estou no escuro
n posso guiar ninguém
preciso q me guiem

n sei o caminho
apenas comecei
dei um passo sem saber se tinha chão
agora n sei se cai ou se estou em pé


Sexta-feira, Abril 06, 2007
 

Salomo Friedlaender

GRAMOPHONE
by Salomo Friedlaender

For many years Professor Pschorr had been preoccupied with one of the most interesting problems of film: his ideal was to achieve the optical reproduction of nature, art, and fantasy through a stereoscopic projection apparatus that would place its three-dimensional constructs into space without the aid of a projection screen. Up to this point, film and other forms of photography had been pursued only in one-eyed fashion. Pshorr used stereoscopic double lenses everywhere and, eventually, achieved three-dimensional constructs that were detached from the surface of the projection screen. When he had come that close to his ideal, he approached the Minister of War to lecture him about it. "But my dear Professor," the Minister smiled, "what has your apparatus got to do with our technology of maneuvers and war?" The Professor looked at him with astonishment and imperceptibly shook his inventive head. It was incredible to him that the Minister did not have the foresight to recognize how important that apparatus was destined to become in times of war and peace. "Dear Minister," he insisted, "would you permit me to take some shots of the maneuver so that you can convince yourself of the advantages of my apparatus?" - A couple of weeks after the maneuver, all the generals gathered in open terrain that was in part rolling, mountainous, and wooded, and that contained several large ponds and ravines, slopes, and a couple of villages. "First, dear Minister and honored generals, allow me to tell you that the whole landscape, including or own bodies, appears as nothing but a single, purely optical phantasmagoria. What is purely optical in it I will make disappear by superimposing projections of other things onto it." He variously combined beams of floodlights and switched on a film reel, which began to run. Immediately the terrain transformed: forests became houses, villages became deserts, lakes and ravines became charming meadows; and suddenly one could see bustling military personnel engaged in battle. Of course, as they were stepping or riding into a meadow, they disappeared into a pond or a ravine. Indeed, even the troops themselves were frequently only optical illusions, so that real troops could no longer distinguish them from fake ones, and hence engaged in involuntary deceptions. Artillery lines appeared as pure optical illusions. "Since the possibility exists of combining, precisely and simultaneously, optical with acoustic effects, these visible but untouched cannons can boom as well, making the illusion perfect," said Pschorr. "By the way, this invention is of course also useful for peaceful purposes. From now on, however, it will be very dangerous to distinguish things that are only visible from touchable ones. But life will become all the more interesting for it." Following this he let a bomber squadron appear on the horizon. Well, the bombs were dropped, but they did their terrible damage only for the eye. Strangely enough, the Minister of War in the end decided against purchasing the apparatus. Full of anger, he claimed that war would become an impossibility that way. When the somewhat overly humanistic Pschorr exalted that effect, the Minister erupted: "You cannot turn to the Minister of War to put a dreadful end to war. That falls under the purview of my colleague, the Minister of Culture." As the Minister of Culture prepared to buy the apparatus, his plans were vetoed by the Minister of Finance "Now the film corporation (the largest film trust) helped itself. Ever since this moment, film has become all-powerful in the world, but only through optical means. It is, quite simply, nature once again, in all its visibility and audibility. When a storm is brewing, for example, it is unclear whether this storm is only optically real or a real one through and through. Abnossah Pshorr has been exercising arbitrary technological power over the fata morgana, so that even the Orient fell into confusion when a recent fata morgana produced by solely technical means - conjuring Berlin and Potsdam for desert nomads - was taken for real. Pshorr rents out every desired landscape to innkeepers. Surrounding Kulick's Hotel zur Wehmut these days is the Vierwaldstätter Lake. Herr v. Ohnheim enjoys his purely optical spouse. Mullack the proletarian resides in a purely optical palace, and billionaires protect their castles through their optical conversions into shacks.
Not too long ago, a doppelgänger factory was established ... In the not too distant future, there will be whole cities made of light; entirely different constellations not only in the planetarium, but everywhere in nature as well. Pshorr predicts that we will also be able to have technological control over touch in a similar way: not until then will radio traffic with real bodies set in, which not just film but life, and which will leave far behind all traffic technologies (...)

Excerpted in Friedrich Kittler, "Gramophone", Film, Typewriter Geoffrey Winthrop-Young and Michael Wutz, trans. (Stanford: Stanford University Press, 1999): pp. 134-5.


ABDUCTION
by Mynona (Salomo Friedländer)

translated by Sheldon Gilman and Robert Levine



One house stood next to another. The faithful servants carried out their duties in the outer rooms, and in the sumptuous rooms the wealthy families enjoyed their easy life. Margaret mixed punch. Uncle Emile was chewing white bread with cold pheasant. Grandpa slurped one oyster after another. Then the servant Wilhelm cautiously approached the head of the household, Baron von Bohleke, and politely whispered , "Three men who demand to speak to your honor have driven up outside.""Then bring them into the reception room." "But they are expecting the baron outside in their coach." "What?" the Baron shouted, outraged. "Me! What kind of men are they?¿ ¿They are not of the upper class; they are people more like us." "Where is my horsewhip?" "Here it is, sir." Baron Bohleke went to the gate, where a rented coach stood, with three men sitting in it. They were wearing visored caps and shabby clothing; a bottle was passed from one whiskered mouth to the next. They looked like characters drawn by Zille, and one of them said, in a drunken voice: "If Bohleke doesn't come out, then I'll smash his skull with this bottle. Bohleke stepped close to the coach, snapping the whip against the leg of his pants. "What do you want? And please make it fast. Instead of answering, he was seized by six rough male fists, lifted into the coach, gagged, and the coach sped off, while the horrified servant stared open-mouthed. The three men meanwhile were laughing and drinking. They praised the driver of the coach. Bohleke lay like a package at their feet; he could not move; they had tied him up. After a thirty-minute ride, during which Bohleke made futile attempts to gain a sense of direction, the coach stopped. The three got out. One of them broke Bohleke's whip. The others blindfolded him. He heard the coach drive off, and felt himself being lifted up. From the sounds of the steps he surmised that they were going through basement-like rooms. After a short time they removed the blindfold. "Gus," said a rather rough voice, "get Maria." Gus staggered off. They were in an empty room. Von Bohleke, still somewhat unsteady, put on his bravest face, and was about to kick up a fuss. But each man grabbed one of his arms. One of them put a greasy hand over his mouth, and the other said, "Shut your trap, baron, we got you in our power." They forced him to sit down on a wooden bench and posted themselves gently on each side of him. "O.K., how much," asked von Bohleke, "do you want for my immediate release." "Nah," the one on the right said, "you're stuck here for the next 3 months." "What?" screamed von Bohleke, "Swine! I..." "Cool it or I'll give you a knuckle sandwich." "I demand to know what your intentions are." "Buddy," said the one on the left, "something so good that you'll think you died and went to heaven. Look! Here they are already. I'll let you in on something else: we¿re going to use you as a stud bull." "As a..." however, even before von Bohleke could finish his sentence, Gus was back again. He was accompanied by an old woman with the unmistakable appearance of a procuress. "Look at Maria," Gus said, "doesn't she still have what it takes? Maria," he continued with a sweep of his hand, "this is the well-known playboy, Baron von Bohleke." "Boys,"Maria said seductively, "Leave me alone with the gentleman!" "But, Maria! Maria!" the three warned simultaneously. ¿Maria, what are you going to do?¿ Then they staggered off through a secret door. ¿ Maria sat down next to von Bohleke, and acted submissively: ¿We have here a rather delicate matter, dear Baron. I have in the past seen better days, and I can easily imagine what you must be feeling now.¿ ¿Please don¿t bore me, my good woman! Just tell me how I can put a quick and immediate end to this outrageous audacity?¿ ¿There¿s no way,¿ Maria replied in a friendly manner. ¿You¿ll just have to be patient for three months. That¿s how long we¿re going to keep you prisoner for purposes which I shall now explain to you in greater detail. You should know we have a first-rate organization. It¿s a society for improving the genetic quality of the human race. We abduct aristocratic playboys, and force them, under the threat of death, to make love to carefully chosen girls from the lower classes; best quality goods, Baron. Up to now we have had no need to kill anybody. They were all more than willing to accommodate us.¿ ¿Damn sacrilege,¿ the Baron burst out, ¿that goes beyond the limits of any sense of decency.¿ ¿Come, Baron, why? People of your class, don¿t they generally have amorous impulses? Why wouldn¿t it be better to have a rational system, where there is a mutual attraction between the classes, and from the product of this mutual attraction create a valuable mixture of blood which would benefit the entire nation! We are idealists, Baron. Why this moral indignation? You of all people? Let me add I am from your class. I was, I am a countess. I¿ve come down in the world. I am content with my lot. I¿ve given life to young men who now play important roles in state and society. I¿ve remained as a willing participant in this mission. Furthermore, my good man, you are, first of all, a connoisseur of beautiful girls; and secondly, we would have no qualms about killing you to get you to do what we want. O.K., please, please drop all this prudery!¿ ¿Madness,¿ the poor Baron groaned. He wrenched his fingers until the joints cracked. Maria looked smilingly into a face that was both angry and helpless. ¿Damn it, my good woman, now ¿¿ ¿Please, just call me Maria,¿ the good woman said. ¿ ¿O.K., Damn it, sweetheart (ah, said Maria), I¿m sure we can come to some immediate financial arrangement. You¿re certainly idealists. But undoubtedly your supporting yourself with this kind of blackmail, and not with manna from heaven. Just arrange things as fast as possible, my dear. And there will be a little something extra for you in it!¿ ¿That¿s not what¿s going to happen, Baron. You have correctly surmised that circumstances force us to underwrite our idealism from the pockets of our victims. But, my dear man, let¿s not forget our eugenic aims. As soon as our own doctor has positively established that you are about to become a father several times over, we shall let you go with our blessings. Not a moment before that; you will have to be kept here for the most intimate of human contacts. By the way, I¿m telling you all this not in order to persuade you. We have drastic means, for example, we have torture chambers equipped with the best that money can buy. I¿m only telling you this for your own information. I¿m the receptionist here. To resist, Baron, is ridiculous and, indeed, could have disastrous, unimaginable results. Follow me voluntarily, or I¿ll have to summon some nasty help.¿ Von Bohleke stood up. In the meantime his curiosity had in fact been aroused. Maria walked ahead of him. She stretched out her hand towards a barely visible bell on the white wall, and said, leaning back: ¿You are going to be living here in a more elegant manner than you have ever experienced before. If they cooperate, everyone finds first-rate treatment here.¿ The Baron hesitated, ¿I can¿t conceive that you use force where it would probably be so easy to find great numbers of willing members, given such luxurious conditions.¿ ¿Ha, ha, ha,¿ Maria laughed delightedly, ¿you are splendidly naïve. In order for this secret state to operate with the state undiscovered we need billions, not millions. We need such sums that we couldn¿t expect even a third of that amount in voluntary contributions. Do I need say anymore?¿ ¿How do you get so much money without somebody turning you in?¿ ¿But my dear fellow, who is going to turn us in? The law governing social security is on our side. Doctors, attorneys, yes even high, perhaps the highest officials, are our pensioners. But let¿s suppose, my dear fellow, that the state itself had some secret interest in our remaining undetected, who would be left to stand up against us? You¿ll learn that. We count among our clients a few princes. But that¿s enough. I¿ll leave the rest to your imagination.¿ With these words she pressed the button. Hinges glided open. The painted wall rolled down revealing a Renaissance style bronze portal. On the portal were embossed figures of a proud, athletic man, waited on by young women. A door-knocker was hanging on a ring. Maria struck the ring three times against the door, producing a metallic, gong-like sound. The doors opened inwardly. A servant in black-velvet livery led the way through a wide corridor with overhead lighting into a kind of vestibule with splendid ebony furniture on a red carpet.

A wide glass window offered a view of a French park in which a fountain murmured. ¿Bring in the ladies,¿ Maria ordered the servant. Von Bohleke inserted his monocle in his eye. Silk rustled. From a high door opposite the window five girls in white silk veils appeared. Maria said in a commanding voice: ¿You are assigned to this gentleman. I expect that you will obey his orders. Baron, I can see by your expression that you are not displeased. I invite everyone to have a mutually satisfying time.¿ She went off ---



One house stands next to another. The faithful servants carried out their duties in the outer rooms, and in the sumptuous rooms the wealthy families enjoyed their easy life. Uncle Emil, however, was no longer happy. He was alone in his sadness, chewing on his partridge. Now and then a tear fell into his wine glass. Melancholy, Grandpa was slurping

His oysters. Margaret was singing at the piano; ¿Who has never eaten his bread with tears.¿ ¿ The servant Wilhem came into the room carefully: ¿Your excellencies, a hired coach has stopped in front of the house, and I believe the Baron is in it. Grandpa¿s oyster dropped on his shirt. Maria choked on the second line of the song. Uncle Emil got up, trembled, and heaved a deep sigh, choking on the last bit in his mouth. Von Bohleke stepped into the room. ¿God, you look radiant!¿ ¿A little vacation,¿ he said jovially. ¿Was in Paraguay. Excellent food. Terrible mail service. Forgive this surprise.¿ Grandpa asked: ¿Kammilo, are you o.k.? We had paranoia in a branch of our family.¿ ¿ ¿More than alright, Grandfather!¿ He embraced Margaret searchingly. Ah, she found him so strangely passionate. Uncle Emil wiped his mouth and eyes. The servant Wilhelm was instructed to go to the Deutsche Bank. ¿



For sometime now people have displayed a fresh vitality. Everywhere there are dynamic aristocratic gentlemen, who are affable even to the most humble. What is the explanation? Maria, Gus, and von Bohleke, among others, know why, but remain silent: they silently receive large sums of money, and everything is going well; and almost every playboy longingly remembers his abduction.

Caso queira ler sem esses erros de formatação terrível, clique AQUI!!!!!


 

Paul Goodman

AMO LA LIBERTÀ MA PREFERISCO L'AUTONOMIA
di Paul Goodman


Molti filosofi anarchici partono dalla voglia di libertà. Ma se la libertà è un concetto metafisico, o un imperativo morale, mi lascia freddo. Non riesco a pensare per astrazioni. Il più delle volte, però, la libertà degli anarchici è un profondo grido animale o una supplica di natura religiosa, come l'inno dei prigionieri nel Fidelio. Si sentono esistenzialmente imprigionati dalla natura delle cose o da Dio, o perché hanno visto e patito troppa schiavitù economica, o perché sono stati privati delle loro libertà, o perché colonizzati interiormente dagli imperialisti. Per diventare umani devono sbarazzarsi dell'imposizione. Poiché, nel complesso, la mia esperienza è sufficientemente ampia, non bramo la libertà più di quanto voglia "espandere la coscienza". Potrei comunque sentirmi diversamente se fossi soggetto a censura letteraria, come Aleksandr Solzenicyn. Io in genere sto male non perché mi sento imprigionato, ma piuttosto perché mi sento esiliato o nato sul pianeta sbagliato. Di recente mi lamento perché sono confinato a letto. Il mio vero problema è che il mondo per me non è funzionale, e capisco che la mia stupidità e codardia lo rendono ancor meno funzionale di quanto potrebbe essere. Certo, alcune atrocità mi prendono alla gola, come succede a chiunque altro, e io desidero ardentemente liberarmene: insulti all'umanità e alla bellezza del mondo che mi lasciano sdegnato; un'atmosfera di bugie, trivialità e volgarità che immediatamente mi disgusta; le autorità costituite non conoscono il significato della generosità e spesso sono semplicemente invadenti e sprezzanti (come diceva Errico Malatesta, tu provi semplicemente a fare a modo tuo, loro ti ostacolano e alla fine la colpa del conflitto che ne emerge è tua). La cosa peggiore è che le azioni distruttive verso la natura da parte del potere sono dementi. Nelle tragedie antiche leggiamo di uomini arroganti che, commesso un sacrilegio, attirano la rovina su di sé e su chi gli sta intorno; analogamente, a volte temo superstiziosamente di appartenere alla stessa tribù dei nostri statisti e di camminare sulla loro stessa terra. Ma no! Gli uomini hanno il diritto di essere pazzi, stupidi e arroganti. È la nostra specialità. Il nostro errore sta nel conferire a qualcuno il potere collettivo. L'anarchia è l'unica forma politica sicura. Uno dei più diffusi equivoci sugli anarchici è che essi credano alla "bontà della natura umana" e che perciò ci si possa fidare degli uomini perché si autogovernino. In realtà tendiamo ad adottare la prospettiva pessimistica: non ci si può fidare della gente, perciò bisogna impedire la concentrazione del potere. Chi comanda è particolarmente soggetto alla stupidità perché non è a contatto con la concreta esperienza particolare e continua invece a interferire con la libera iniziativa delle altre persone e a renderle stupide e ansiose. Immaginate cosa può fare al carattere di un uomo venire deificato come Mao Tse Tung o Kim Il Sung. O pensare abitualmente all'impensabile, come i padroni del Pentagono. Per me, il principio primo dell'anarchismo non è la libertà ma l'autonomia. Poiché intraprendere qualcosa, farlo a modo mio ed essere un artista con le cose concrete è il genere di esperienza che amo, sono restio a farmi dare ordini da autorità esterne, che non conoscono concretamente il problema o i mezzi disponibili. Soprattutto, un comportamento è più elegante, vigoroso e discriminante senza l'intervento di autorità che vanno dall'alto verso il basso, si tratti dello Stato, della collettività, della democrazia, della burocrazia corporativa, delle guardie carcerarie, dei decani universitari, dei piani di studio predeterminati o della pianificazione centralizzata. Tali cose possono essere necessarie in certe emergenze, ma a costo della vitalità. Questa è una proposizione empirica nella psicologia sociale e penso che l'evidenza sia pesantemente in suo favore. In generale, servirsi del potere per portare a termine un lavoro è inefficace nel breve periodo. Il potere esterno inibisce la funzionalità interna. Come diceva Aristotele, "l'anima si muove da sé". Nel suo recente libro Oltre la libertà e la dignità, B.F. Skinner sostiene che questi sono pregiudizi difensivi che interferiscono con il condizionamento operativo delle persone verso i traguardi che desiderano, la felicità e l'armonia. (È strano incontrare di questi tempi una riesposizione nuda e cruda dell'utilitarismo di Jeremy Bentham). Non coglie il punto. Ciò che si può obiettare al condizionamento operativo non è che violi la libertà, ma che il comportamento che ne segue è sgraziato e di bassa qualità, oltre che incostante. Non è assimilato come una seconda natura. Skinner è così impressionato dal fatto che il comportamento di un animale possa essere plasmato completamente in modo da agire secondo lo scopo dell'istruttore, che non riesce a confrontare questa azione con il comportamento inventivo, flessibile e in continuo sviluppo dell'animale che agisce e risponde agli stimoli del suo ambiente naturale. E, per inciso, la dignità non è un pregiudizio specificamente umano, come egli pensa, ma è l'atteggiamento usuale di ogni animale, che viene rabbiosamente difeso quando l'integrità organica o lo spazio individuale vengono violati. Desiderare la libertà è certo uno stimolo per il cambiamento politico più forte dell'autonomia. Dubito comunque che sia altrettanto tenace. La gente che fa il proprio lavoro a suo modo di solito riesce a trovare altri mezzi che non siano la rivolta per continuare a farlo, compresa molta resistenza passiva all'interferenza. Per realizzare una rivoluzione anarchica, nei momenti iniziali della sua attività Michail Bakunin voleva affidarsi proprio ai reietti, ai delinquenti, alle prostitute, ai forzati, ai contadini senza terra, ai sottoproletari, a quelli che non avevano niente da perdere, neanche le loro catene, ma che si sentivano oppressi. C'erano molte truppe di questo tipo nel tetro periodo di massima fioritura dell'industrialismo e dell'urbanizzazione. Ma naturalmente è difficile organizzare per una lunga lotta gente che non ha nulla e viene presto facilmente sedotta da qualche fascista che può offrire armi, vendetta e un momentaneo afflusso di potere. Il pathos delle persone oppresse che bramano la libertà è che, se riescono a liberarsi, non sanno cosa fare. Non essendo mai stati autonomi, non sanno come affrontare le situazioni e prima che imparino è di solito troppo tardi. Nuovi dirigenti hanno assunto il comando, che possono essere più o meno benevoli e fedeli alla rivoluzione, ma non hanno mai avuto fretta di abdicare. Gli oppressi sperano troppo dalla Nuova Società, invece di stare caparbiamente attenti a gestirsi le proprie cose. L'unico movimento di liberazione di successo a cui riesco a pensare è la rivoluzione americana, realizzata in gran parte da artigiani, coloni, mercanti e professionisti che innanzitutto avevano interessi in gioco, volevano liberarsi da interferenze esterne e godettero successivamente di una prospera semi-anarchia per circa trent'anni: allora nessuno si preoccupava molto del nuovo governo. Erano protetti da tremila miglia di oceano. I rivoluzionari catalani durante la guerra civile spagnola avrebbero potuto ottenere lo stesso risultato per le stesse ragioni, ma fascisti e comunisti li fecero fuori. L'anarchia richiede competenza e fiducia in sé stessi, il sentimento che parte del mondo mi appartiene. Non fa presa tra gli sfruttati, gli oppressi e i colonizzati. Così, sfortunatamente, manca di una spinta potente verso il cambiamento rivoluzionario. E tuttavia nelle floride società liberali d'Europa e d'America abbiamo una favorevole possibilità di questo tipo: le persone sufficientemente autonome, fra la classe media, i giovani, gli artigiani e i professionisti, non possono fare a meno di vedere che non è possibile continuare così con le attuali istituzioni. Non possono fare un lavoro onesto e utile o praticare nobilmente una professione; le arti e le scienze sono corrotte; imprese modeste devono essere gonfiate oltre ogni misura per sopravvivere; i giovani non riescono a trovare una vocazione; è difficile crescere i bambini; il talento è soffocato dai titoli di studio; l'ambiente naturale viene distrutto; la salute è messa in pericolo; la vita della comunità è inconsistente; i quartieri sono brutti e insicuri; i servizi pubblici non funzionano; le tasse vengono sperperate per guerre, insegnanti e politici. Allora essi possono fare dei cambiamenti, per estendere le aree di libertà eliminando sempre più le interferenze. Tali cambiamenti possono essere a spizzichi e non drammatici, ma devono essere essenziali, poiché molte delle attuali istituzioni non possono essere rimodellate e la tendenza del sistema nel suo insieme è disastrosa. Mi piace il termine marxista "estinzione dello Stato", ma deve iniziare ora, non in futuro; e la meta non è una Nuova Società, ma una società tollerabile in cui la vita possa andare avanti.

Traduzione di Francesco Minola


Quinta-feira, Abril 05, 2007
 
C..................A..................................................O.................................................................................S
O.......................C..............................................................A..................................O................................S
O...........................S..................................C.................A......................................O....................................S
N.........................O...........................................................C.........................A...............................O................S
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S..................O.................U..................C...........................A.................................O.....................................................S
M.........................E...................................U...............................................................................................................CAOS

 

Transe calaciano.

PsicoPoÉtica

Neste momento me ponho em estado de calamidade pública. Meu grito de guerra é um desabafo e uma declaração apaixonada. Amo a psicologia desmesurada dos loucos, dos delirados, dos blasfematórios, dos místicos feiticeiros que fazem da palavra flecha e dos corpos morada para o outro. Acendendo fogueiras na escutidão, esquentando num transe vermelho os olhares. Quero ser curandeiro, místico dos mais poderosos, capaz de romper feitiços e abrir caminhos. A minha psicologia é arte daquelas que se faz com sangue, poesia e dor. Sem metodos adequador, sem vernáculo, sem tópicos ou dissertações e teses. Minha magia é das palavras rarefeitas que movimentam atomos e fazem o mundo girar em 360º, nas três dimensões do espaço, e nos planos transversais. Minha ciência é aquela que remete ao café preto e pão quente com manteiga. Castanhas torrando em brasa, pipocando. Aquele dos corpos que se abarcam e se fundem, produzindo luz, encantando o mundo, abrindo furos ilógicos na existência-pulsação. Minha psicopoiésis é a poesia das poucas palavras, do olhar que se deixa, da mão que afaga sem precisar de argumento, da pergunta curiosa, da falta de protocolos, da tecitura dos sonhos, da linearidade do horizonte, do devir, do por vir, do visto e vivido na intensidade de um bater de asas de um beija-flor verde-zul. Minha ciência é arte. Minha arte é espírito. Meu espírito é carne e minha carne é terra molhada.

(L. F. Calaça | 05/04/2007)

 
MULEHERES



(L. F. Calaça | 12/2006)




Terça-feira, Abril 03, 2007
 

P
O
E
M
A

A
C
H
A
T
A
D
O


Eu
ando
com
a
ponta
dos
de-dos
dos
p-ÉS
des-calços.

Eu
TOM-bo
com
estr-ONDO
chão
d-UR(R)O
das
v-ÍAS
NU-as
das
MIN-has
des-CRENÇAS.

Eu
conto
e
canto
o
qua-SE
o
como
s-EM
ser
nada
além
do
c´-EU.

E,
na
pa-REDE
cinza
d-EIXO
minha
lou-CURA
e
o
r-ASTRO
de
SÃ-gue.

(L.
F.
C
a
l
a
ç
a
_
3
\
4
\
2
0
0
7)

... PÕE-MACHA-ATADO.

MACHA
MANCHA
MARCHA
MACHADADO
POEM-ACHA?
ACHA?
AHAHAHAHA

POEMATADO
PÕE ATADO
ATADO
PÕE
.
.
.
OVOS
DE FAIZÃO
DOURADO.

POEMA
BESTEIRA!
CONTINUO
POE-MATADO
MATADO
ATADO

POEMA
MUDO

Quarta-feira, Março 21, 2007
 
GESTALT E LITERATURA:
ESBOÇOS E PARALELOS, GÊNESE E ATUALIDADE


- proposta de trabalho para o XI Encontro/VIIICongresso de Gestalt-Terapia - Rio de Janeiro -

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

RESUMO:
Este trabalho tenta estabelecer um paralelo entre GT e literatura, relacionando as origens da GT com o expressionismo alemão e o movimento beat americano dos anos 60, analisando traços literários presentes nas narrativas autobiográficas e teorizações em GT e refletindo sobre a atual produção de uma "literatura gestalt" brasileira.


Durante os mais de trinta anos de Gestalt-Terapia no Brasil observamos uma grande preocupação dos gestalt-terapeutas no sentido de tornar evidente a consistência da abordagem através da exploração e explicitação de suas bases filosóficas e fundamentação teórica, bem como a questão da técnica clínica e ou instrumentais, o que teria repercutido de forma evidente nas produções de mestrado e doutorado nos últimos 30 anos (HOLANDA, A. F. e KARWOWSKI, S. L., 2004). Esses anseios de fundamentação da abordagem vêm da demanda dos gestalt-terapeutas de dar mais legitimidade à GT no campo das práticas psi, buscando tornar mais consistente sua formação profissional (FRAZÃO. L. M. in CIORNAI, S., 1995).

Neste trabalho, no entanto, proponho trilhar um caminho distinto, tentando estabelecer uma articulação que considero ainda pouco explorada nas investigações empreendidas sobre a abordagem. Trata-se de traçar possíveis relações entre a Gestalt-Terapia e a literatura.

Na própria Psicologia a articulação com a literatura ainda é pouco explorada, ou é feita principalmente pela Psicanálise, que tende a trabalhar com aspectos ligados a projeção e sublimação dos desejos do autor, num enfoque que enfatiza aspectos de sua personalidade e/ou possíveis efeitos catárticos sobre o leitor (LEITE, 1962).

Proponho, então, uma leitura indireta, levando em consideração três contextos e momentos histórico-culturais distintos: 1) o pós 1º Guerra Mundial e emergência do movimento expressionista alemão; 2) os EUA das décadas de 60-80, envolvendo o movimento da contracultura, a emergência da Psicologia Humanista e a literatura beat, e 3) o Brasil da década de 90 à atualidade.

A primeira articulação, situada no contexto da Alemanha pós 1ª Guerra Mundial, diz respeito ao impacto do expressionismo sobre a primeira etapa da vida de Perls, geralmente associada à sua participação no teatro de Max Reinhardt (PERLS, 1979), e ao contato com S. Friedlaender, grande influenciador de Perls através de sua filosofia da Indiferença Criativa (PERLS, 1979 e 2002; STEVENSEN, 2004). O que geralmente é pouco considerado é a participação de Friedlaender como parte desse movimento expressionista, sob o pseudônimo de Mynona.

Não pretendo me aprofundar muito nesse recorte, proponho apenas para a conexão que há entre a poesia expressionista em seus fundamentos e uma dimensão vivencial e fenomenológica da poesia, conforme se apresentada de forma implícita no manifesto "Expressionismo na poesia" de Kasimir Edschmid (TELLES, 1997).

A segunda articulação, na qual pretendo me deter mais extensamente, relaciona-se às narrativas e relatos autobiográficos produzidos tanto na Gestalt-Terapia, quanto em representantes da Psicologia Humanista. Dentre essas obras situo "Escarafuchando Fritz: dentro e fora da lata do lixo" (1969), a autobiografia do Fritz Perls, escrita em Esalen, na qual ele narra passagens de sua vida e realiza reflexões sobre a Gestalt-Terapia e "Não Apresse o Rio: ele corre sozinho" (1970) de Barry Stevens, que envolve um relato em primeira pessoa sobre suas experiência no Instituto Gestalt do Canadá em Cowikan, em 1969.

Além dessas duas obras ligadas mais diretamente ao que se poderia chamar de uma "literatura gestaltica", pontuo também o artigo de J. Lederman, "A cólera e a cadeira de balanço" (FAGAN e SHEPHERD, 1980), onde esta relata na forma de poesia um caso envolvendo a aplicação de técnicas gestalt com crianças, além de "clássicos" de autores humanistas como o "Tornar-se pessoa" (1961) de Carl Rogers, os relatos autobiográficos de Barry Stevens contidos no "De Pessoa para Pessoa" (1967), além do "Vestígios de Espanto" (1985) de John Keith Wood.

O que há em comum entre esses relatos, e que de alguma forma se manifesta em menor escala também em obras teóricas como o "Gestalt Terapia Integrada", dos Polsters (1973; 2001) e o "Gestalt - uma terapia do contato" de Serge e Anne Ginger (1987; 1995), é a dimensão pessoal e autobiográfica que esses autores utilizam ao trazer a esfera do vivido para uma articulação com o pensamento fenomenológico-existencial. Cada qual com sua especificidade, com seu "estilo" próprio, faz articulações entre fantasia, ficção e autobiografia, numa proposta que transcende o campo da teorização e adentra uma metapsicologia, uma reflexão sobre a vida e a existência, sobre o ser pessoa, o ser psicólogo, num processo de construção e desconstrução de significados.

A partir dessas obras creio ser possível estabelecer também uma relação com aspectos da contracultura (PEREIRA, 1984), contexto de emergência das abordagens humanistas (CIORNAI, 1995; BOAINAIN JR., 1998), e com o movimento literário beat (BUENO e GÓES, 1984). Esta última relação, por analogia, seria possível principalmente na autobiografia do Perls (1979), posto que esta evidencia uma grande aproximação entre o percurso de vida de Perls e a dos poetas beat americanos, pelo registro das viagens ao redor do mundo, uso de drogas, orientalismo e liberdade sexual.

Creio que, em grande medida, essas obras se encontram um pouco negligenciadas nas discussões atuais na abordagem gestáltica, justamente por seu caráter desatrelado de uma proposta formadora de teorização e fundamentação científica da Gestalt ou da Psicologia Humanista. Acredito que este abandono é perigoso, posto que essa "literatura" representa um documento histórico importante para se compreender não só as origens da 3ª Força em Psicologia, como pode conter elementos latentes ainda por serem melhor explorados, principalmente no que tange a relação entre psicologia e literatura.

O terceiro e último ponto que pretendo tratar diz respeito à "literatura gestaltica" que emerge atualmente no Brasil, paralelamente ao número significativo de publicações teóricas. Trata-se das obras "Narciso, a bruxa e outras histórias psi" (1994) e "Amor e ética" (2006) de Paulo Barros, "A arte de restaurar histórias: libertando o diálogo" (1999), de Jean Clark Juliano e o "Ruídos: contato, luz, liberdade: um jeito gestaltico de falar do espaço e do tempo vividos" (2006), de Jorge Ponciano Ribeiro.

Proponho com esse trabalho, pois, abrir uma via de articulação possível entre Gestalt-Terapia e a literatura, buscando compreender vínculos existentes entre a experiência vivida e significada e as construções poéticas e narrativas dos relatos autobiográficos presentes em obras da Psicologia Humanista e Gestalt-Terapia. Acredito que estes registros seriam embriões para um possível uso da literatura enquanto momento de contato e awareness da pessoa consigo mesma e com sua história de vida (POLSTER e POLSTER, 2001), significada e ressignificada no momento da escrita, nas construções e reconstruções do si-mesmo.


EQUIPAMENTO UTILIZADO: data-show.


BIBLIOGRAFIA:

BARROS, P. (1994). Narciso, a bruxa e outras histórias psi. - São Paulo: Summus.

BARROS, P. (2006). Amor e ética. - São Paulo: Summus.

BOAINAIN JR. E. (1998) Tornar-se transpessoal. - São Paulo: Summus.

BUENO, A., GÓES, F. (1984) O que é geração beat. - São Paulo: Brasiliense.

CIORNAI. S. (org.). (1995) 25 anos: gestalt-terapia, psicodrama e terapias neo-reichianas no Brasil. - São Paulo: Agora.

EDSCHMID, K. (1918). "Expressionismo na poesia." In: TELLES, G. M. (1997) Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 a 1972. - Petropolis, RJ: Vozes.

GINGER, S. e GINGER, A. (1995) Gestalt: uma terapia do contato. - São Paulo: Summus.

HOLANDA, A. F. e KARWOWSKI, S. L. (2004) "Produção acadêmica em Gestalt-Terapia no Brasil: analises de mestrados e doutorados." In: Psicologia Ciência e Profissão, 2004, 24(2), p. 60-71.

JULIANO, J. C. (1999) A arte de restaurar histórias: libertando o diálogo. - São Paulo: Summus.

LEDERMAN, J. "A cólera e a cadeira de balanço". In: FAGAN, J. e SHEPHERD. I. L. (1980) Gestalt-Terapia: teoria, técnicas e aplicações. - Rio de Janeiro, Zahar Editores.

LEITE, Dante Moreira. (1967) Psicologia e Literatura. - 2. ed. - São Paulo: Companhia Editora Nacional/Editora da Universidade de São Paulo.

PEREIRA, C. A. M. (1984) O que é Contracultura. - São Paulo: Brasiliense.

PERLS, F. S. (1979) Escarafuchando Fritz: dentro e fora da lata do lixo. - São Paulo: Summus.

PERLS, F. S. (2002). Ego, fome e agressão: uma revisão da teoria e do método de Freud . - São Paulo: Summus.

POLTER, E., POLSTER, M. (2001) Gestalt-Terapia integrada. - São Paulo: Summus.

RIBEIRO. J. P. (2006) Ruídos: contato, luz, liberdade: um jeito gestaltico de falar do espaço e do tempo vividos. - São Paulo: Summus.

ROGERS, C. (1976) Tornar-se pessoa. - São Paulo: Martins Fontes.

ROGERS, C. e STEVENS, B. (1976). De pessoa para pessoa: o problema de ser humano, uma nova tendência na psicologia - São Paulo: Thompson Pioneira.

STEVENS, B. (1978). Não apresse o rio: ele corre sozinho. - São Paulo: Summus.

STEVENSON, H. (2004). Paradox: A Gestalt Theory of Change. Arquivo formato pdf disponível no site:
http://www.clevelandconsultinggroup.com/pdfs/paradoxical_theory_of_change_iii.pdf

WOOD. J. K. (1985) Vestígios de espanto: notas de fins de semana de um psicólogo. São Paulo: Agora.



MINI-CURRÍCULO

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior é estudante do curso de graduação em Psicologia, pela Universidade Federal da Bahia, faz o Curso de Formação em Gestalt-Terapia pelo Instituto de Gestalt-Terapia da Bahia (conclusão prevista para 2009), sob a orientação das gestalt-terapeutas Maria Alice (Lika) Queiroz e Aline Campos , e em Abordagem Centrada na Pessoa ¿ ACP, sob a orientação do Prof. Emanuel Pereira.

É bolsista de iniciação científica do CNPq no projeto "Transições familiares como eventos narrativos. Cultura e memória autobiográfica", sob a orientação da Profa. Dra. Ana Cecília de Souza Bastos. Praticipou da sessão coordenada "Construção em espaço de fronteiras: poética e memória", na XXXVI Reunião Anual de Psicologia - SBP, 2006, Salvador, com o trabalho "Menino presente: fragmentos de infância e aspectos do desenvolvimento na poética memorialista de Boi Tempo, de Carlos Drummond de Andrade" (resumo publicado nos Anais).

Embora não desenvolva atividade de gestalt-terapeuta, está vinculado a pesquisas ligados a poética e memória autobiográfica, perspectiva que orienta o trabalho proposto.



Terça-feira, Março 20, 2007
 

Ney Matogrosso

SANGUE LATINO

(Ney Matogrosso)

Jurei mentiras e sigo sozinho, assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino
Minh'alma cativa



Segunda-feira, Março 12, 2007
 
CLICHÊ BONECA-CARRINHO



 
ANÁLISE COMBINATÓRIA 1



 
PAPAI E MAMÃE



Domingo, Março 11, 2007
 
ELOQUÊNCIA SOF(ESTICADA)ISTA

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(L. F. Calaça | 11/03/2007)

 


MINIMALISMO SPUTNIK

Eu acredito no minimalismo.

Sim! Eu acredito.

E nem por isso sou minimalista.

E acho que andar nu é legal.

Mas nunca andei nu.

Não sou nudista, mas sou simpatizante.

Que merda estou escrevendo?

Esse desenho daí de cima é um poema.

E se não for um poema, pouco importa.

Pode ser um sistema complexo.

Ou um monte de linha colorida e sem leis da causalidade.

Odeio digressões!

Fodam-se os purístas!

Eu gosto minimalismo de Kerouac. Quanto mais melhor.

E depois... Duendes verdes e OVNs.

Puta que pariu. E eu nem fumo!

(L. F. Calaça | 11/03/2007)

Sábado, Março 03, 2007
 
HOJE, AOS 21 ANOS PLANEJEI MINHA VIDA DA SEGUINTE FORMA:

2004: entrada na Universidade (18 anos)

2004 - 2009: 5 anos de Psicologia (18 - 23 anos)
+ Gestalt-Terapia (participar de pelo menos 2 Congressos: 2007 e 2009);
+ Abordagem Centrada na Pessoa.
+ Cursos envolvendo arte-terapia

2009 - 2014 (23 - 28 anos): Conseguir um emprego público de meio turno (tarde), consultoria em comunidade em fins de semana e clínicar à noite.

2010 - 2014 (24 - 28 anos): 4 anos de Filosofia
+ Psicodrama;
+ Constelações Familiares;
+ Bioenergética;
+ Aprender alemão.

2014 - 2020 (28 - 34 anos) : Trabalhar em clínica à tarde e à noite.

2015 - 2019: (29 a 33 anos): 4 anos de Letras
+ formação em Transpessoal
+ Psicanálise (se ainda tiver saco).
+ Aprender francês

2020 - 2022 (34 a 36 anos): 2 anos de mestrado

2020 - (a partir dos 34 anos): Ensino universitário e clínica.

2023 - 2026 (36 a 40 anos): 3 anos de doutorado

2026 (40 anos): pensar em casar.

Conseguir trabalho de um turno (a partir de 23 anos):
1. concurso público
2. em clínica / ensino universitário
3. consultoria em comunidade / "desenvolvimento pessoal"

Trabalhar dos 23 - 58 anos (35 anos)

Outros objetivos de vida:
1. Fazer teatro (começar antes dos 40 anos)
2. Ir para a Espanha
3. Ir para a França
4. Ter um apartamento (com certeza, até os 30 anos)
5. Ter viagens psicodélicas (dos 27 aos 30 anos)
5. Ter um gato persa
6. Ter uma casa no campo ou perto da praia sem farofeiros (quando chegar aos 40 anos)
7. Publicar um livro de 500 páginas de literatura (após os 40)
8. Ter estabilidade econômica para a velhice (depois dos 60)

Coisas que NÃO QUERO para minha vida até os 60 anos:
1. Passar por pindaiba por falta de dinheiro
2. Infartar
3. Psicotizar
4. Ser assassinado
5. Morrer com câncer
6. Morrer de AIDS (pouca probabilidade, mas não impossível)

Problemas previsíveis de ocorrer na velhice (ou depois dos 50 anos):
- depois dos 50:
1. Problemas cardíacos (com possibilidade de infarte) e hipertenção
2. Problemas ósseos
3. Problema de visão
4. Aumento no défcit de atenção

- depois dos 60
1. Hipertensão (com possibilidade de AVC)

- depois dos 70
1. Atrofia muscular
2. Dores crônicas
3. Demência

EM CASO DE SURTO: VIRAR ARTISTA PLÁSTICO.

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007
 
SÃO PAULO DESOLADA - último dia

Como TU, minha irmã, preparo minha bagagem
carregando dias ambíguos, de companhia e silêncio,
cheios de sentimentos sinceros de confusão e desejo
de continuar num mundo sem rotina, anônimo e sem voz
na garoa, nas brisas, nas facas no escorredor de pratos.

Neste eu desterritorializado, neste eu sem rumo, vago,
carrego o sentimento-amor, água represada, que o afago
- às vezes insípido ou resistente, por falta de mim mesmo -
na materialização das lágrimas que fluem em rio (a)dentro
no patinar entre ilusões e espaços sem matéria alguma.

Sou de sua carne, em combinação binária ligeiramente outra
mas sou sua poesia, da boca emergindo renovada, num susto.
Não sei ser guia em terra de ilusões cambiantes, água(rdendo)
mas misturo semestes, numa amalgama, chumbo e ouro
pedindo aos deuses que não me deixem sentir sozinho.

MEU adeus ao caos, no saudosismo prévio de TI.
Amor sereno a afagos entre irmãos.

(L. F. Calaça | 23/02/2007)


Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007
 
SÃO PAULO INCENDIADA - terceiro dia

Serras gritam sobre o metal vermelho faísca
deste meu canto alto, riscando o céu com nuvens rotas
trago o sol da terra trêmula, da carne transmigrada
sou estrangeiro, carregando tochas e poesia.

Altas torres, formigas caminhando em calçadas largas
no passo sem olhos, sem órgãos, no cinza verdeado, pára-raios
e os trovões no meu peito, sangue congelado nas artérias de alsfalto
e o metrô correndo, entubado, nas entranhas negras de concreto.

Não vi pássaros, mas elefantes, E pessoas com sotaques
que latejam na dor dos póros alucinógenos nipo-austro-coreanos
e deglutinam os fusos, os parafusos, as sindicâncias alamedas.
quero acordar como um feto, noite entreaberta, corpos-pasto.

(L. F. Calaça | 15/02/2007)

Domingo, Janeiro 28, 2007
 
FIM DE FESTA

amanheço nas pulsações
das horas reviradas
acordando noites
despertando sonhos
acariciando corpos
dedilhando valsas
atravessando o tempo...

adormeço dias incompreensíveis
na metamorfose dos dedos
através dos reflexos espelhados
de quimera e vida ácida
nas noites de nuvens vermelhas
e tempestades líquidas
sem girassóis.

(L. F. Calaça | 28/01/2007)

Domingo, Janeiro 21, 2007
 

Pretoebranco22. L. F. Calaça (20/01/2007)

tarde

às vezes enlouqueço nesse mundo pára-raio. estou um pouco surdo de meu lado esquerdo, sinto os sons adormecendo sem chegar ao foco. às vezes suicido numa dor de cabeça infeliz, latejando dores que não posso dizer, pois engulo emoções sem válvula de escape, sem lanterna, sem bússola. quero dormir nú com o mar batendo em meus pés, olhando as estrelas mortas que ainda teimam em emitir luz milhares de anos após o aniquilamento. gostaria de ser palavra provérbio, não, queria sem palavra preceito, palavra presságio, palavra revelação apocalíptica, desejo de finitude e infinitude, nos compassos arritmados dos corpos lunares. queria ter um olhar doce, daqueles de criança perdida no escuro sonâmbula. queria amanhecer saudades intermináveis e romper barreiras do indizível para viver plenamente meus sonhos. e de tanto querer acabei perdendo o rumo das noites felizes, das ilusões quiméras, das visões de um planeta distante de luzes poliédricas. loucura. loucura. loucura. rio desses que se atravessa com o peito, com as mãos enlameadas de revolver a terra empapada pelo sangue e pelas lágrimas de mim. queria escrever sem paradas na estação central, mas o coração é bomba hidráulica. ai ai, como o corpo é pedaço perfeito daquilo que pedimos trégua e ao mesmo tempo é parte toda de meus caminhos de areia escura amortecida. nada parecido com as marcas de unhas que deixo sangrando no silêncio de um quarto todo branco. meus olhos trincheiras abandonadas. meus dedos dissolvendo grãos de neve. nunca senti frio suficiente para ter um coração. mentira! sempre tive um coração desejando um corpo atado ao peito, segurando meus sonhos com delicado toque. o que escrevo aqui se dissolve. perdi meus medos de solidão, mas ganhei a nona sinfonia. amar é morrer pouco a pouco. não quero saída. sou meu próprio pé. e vou.

(L. F. Calaça | 21/01/2007)

Quarta-feira, Janeiro 17, 2007
 

...

 
PARTILHA

O mundo invertido

Os corpos lunares

As gotas de vidro

Os homens seguidos

pelas formas angulares

das brisas, das sombras

das noites perdidas, no escuro

pedindo trégua, pedindo água

Minha alma se dissolve agora

na lombada de um túnel

na abertura da escada

na passagem, o cometa

Na memória, histórias

no ocaso, destinos

na marcha, o corpo

- dependurado pelo pé -

arrancando preces

arrastando crianças

medicando feridos

triturando ossos

afogando maçãs.



...como um albúm em chamas.

(L. F. Calaça | 17/01/2007)

Terça-feira, Janeiro 16, 2007
 

Gestalt 03. L. F. Calaça (13/01/2007)

FUTURO PRETÉRITO

- E se eu enlouquecesse?
- E se eu amanhecesse?
- E se eu adormecesse?
- E se eu atravessasse?
- E se eu amordaçasse?
- E se eu voasse alto?
- E se eu caísse longa-mente?
- E se eu pedisse abrigo?
- E se eu pedisse ajuda?
- E se eu gritasse alto?
- E se eu acordasse (no escuro)?
- E se eu pichasse um muro?
- E se eu sofresse mudo?
- E se eu amasse tanto (que deixasse de sentir)?
- E se eu afogasse o infinito?
- E se eu perdesse o suspiro?
- E se eu perdesse a rima de um poema de amor?
- E se eu fosse possuído?
- E se eu te possuísse?
- E se eu te amasse num entardecer, clandestino?
- E se eu sorrisse lágrimas?
- E se eu cortasse a linha?
- E se eu andasse na praia, apontando o Sol?
- E se eu fosse a Lua?
- E se eu te amasse apenas?
- E se eu morresse hoje?
- E se eu doesse?
- E se eu ferisse?
- E se eu tirasse sangue do peito?
- E se eu tirasse um grito dos lábios?
- E se eu obstruísse?
- E se eu virasse esfinge?
- E se eu virasse santo?
- E se eu caísse no poço?
- E se eu enfurecesse?
- E se eu parisse o dia?
- E se eu fosse enforcado por heresia?
- E se eu virasse brisa?
- E se eu virasse águia?
- E se eu fosse um rouxinol?
- E se eu te amasse hoje?
- E se eu não existir?
- E se não houver futuro?



...



- Não sei!

Hoje sou sonho.

(L. F. Calaça | 16/01/2007)


Domingo, Janeiro 14, 2007
 
SACRÁRIO

Neste quarto-claustro despimos nossos hábitos
e cultuamos o amor ilimitado dos corpos nus
sob o olhar de um céu de espelho, lago metálico
como vitral ou afresco de catedral sagrada.

Meu amor, cato palavras para exprimir o não dito
quando caminhamos em silêncio pela cidade suja
insuspeita de nossos segredos inconfessáveis
a não ser nas dobras de um lençol branco de pernas laçadas.

Nossos corpos, hóstias repartidas e consagradas
é a materialização dos cantos de graças à Vida,
Comunhão nos mistérios de se conceber o invisível
enquanto cantamos amores e rompemos limites.

Amor... trago seu nome gravado no corpo revelação
como chaga doce e sempre reaberta, sangrando
fonte perene de meus desejos azuis.

(L. F. Calaça | 14/01/2007)

 
LÁBIOS

Gosto de amores que sangram na abundância das pulsações.
Amores canibais, carne viva devorada em ritual sagrado.

Gosto de amores-orgasmo, que jorram e explodem a criação do homem.
Amores meteóros, fazendo cratéras seculares nos peitos sonhadores.

Gosto do amor que é amor, sem restrições, ilimitado.
Amores santos e pagãos, amor herético do mundo.

(L. F. Calaça | 14/01/2007)


Sábado, Janeiro 13, 2007
 

Gestalt 02. L. F. Calaça, 12/01/2007.

CARTA VIRTUAL

Ando nos versos. Sou poeta, afinal. Mas estou também nos (in)versos. Não sei se meu caminho será a unidade ou a loucura. Penso que ando naquela corda-bamba dos tentados. Só sei que me sinto bem em momentos do conjunção, em que me encontro com um outro, com um TU que me faz sentir EU. Algo meio buberiano, como te disse, do encontro e do diálogo, do sensorial e intuitivo. Meus versos não são racionais e intelectivos, são desvairados como meus sentimentos, intensos como chama, como um inferno dentro de mim, que me devora, mas que me constitui, que me dá sentido, que me re(des)liga. Minha religião atéia de um amor que não se sabe, mas que se sente, numa confusão que é incoerente, mas verdadeira, como a fala de um louco que rasga as roupas e se joga no caos. Teimo pelos que tentam enfrentar essa loucura-mim, meu desafio abissal, meus sentimentos incontrolados, mas ando na serena convulsão das palavras, na explosão dos sentidos e na configuração dos amores plenos de presente.

(L. F. Calaça | 13/01/2007)

 
MINHA BIBLIOTECA GESTALT...



...E MEUS LIVROS DE CABECEIRA

Fileiras duplas...
Fileiras duplas...

Precisando de mais espaço
pra expandir meus sonhos.

(L. F. Calaça | 13/02/2007)

Quinta-feira, Janeiro 11, 2007
 
EU...

Contrariando o perfil orkutiano geral dos estudantes de psicologia,
as expectativas dos etólogos e evolucionistas
e os desejos de minha mãe canceriana, eu afirmo:

...SOU UM SER EM DESCONTRUÇÃO!

Amém.

(L. F. Calaça | 11/01/2007)

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007
 

Kazuo Ohno.

"Não me interesso pelo pensamento lógico, racional. Estou preocupado em questionar o espírito. Acho que a própria vida inclui algo de louco, de incompreensível, que escapa ao pensamento racional. Por exemplo, no momento da concepção existem milhões de espermatozóides tentando fecundar um óvulo, mas apenas um consegue. É puro acaso. É a mais completa desordem. Não há organização alguma. Sob o ponto de vista racional, isso é louco. Entretanto, sob o ponto de vista espiritual, essa imponderabilidade, esse acaso, é muito importante. Quando a arte tenta surgir do pensamento lógico, racional, não tem sentido. A única maneira de fazê-la aflorar é através do espírito. Penso que a arte é o nível mais alto a que pode chegar a expressão humana. E o seu principal objetivo é transformar a vida. A arte é sempre profundamente relacionada com a vida e a morte, a alma e o corpo. Algumas vezes é impossível ao pensamento lógico compreender isso. A arte tenta desvendar o mistério de viver e morrer"

Kazuo Ohno. (1906-), mestre do Butoh

 
O ENFORCADO


foto de: Janaína Calaça e L. F. Calaça, 2006.



fui enforcado por heresia, blasfemando contra o nome de um deus de asas pretas
tive meu corpo chamuscado pelas brasas de um amor cortês materializado
em minha pele, queimada pelas chamas intensas do desejo incerto
e impregnado do aroma dos incensos e das carícias de quem serve a hóstia como pão

fui enforcado e minha cabeça-pecado foi separada do corpo e transformada no símbolo
dos amantes de madrugadas clandestina, de beijos roubados e de sexos trêmulos
e em meu crânio-relicário guardou-se a flor enamorada de um rouxinol
sendo o todo repartido, transformado em cinzas, convertido na droga alucinógena dos amantes

fui enforcado e meu sêmen fecundou as luzes de um futuro-prata
como a Lua sua, nascedouro de riachos rebeldes, jardins de amores puros
adormecidos sob o mundo branco dos cobertores finos e molhado pelas delícias sutís
do manjar dos deuses que contemplam a conjunção dos signos em fluxo

(L. F. Calaça | 10/01/2007)

Terça-feira, Janeiro 09, 2007
 

O Louco, Tarô de Marselha.

BEATITUDE

a Manoela

Quero uma canção serena
na noite dos enforcados
nas brisas do que tem guerra na alma
e avalanches de solidão.

Grito pela cura dos fracos encapuzados
que silenciam os horrores dos sonhos
e penetram a concavidades das artérias em chamas
dilacerando pétalas e montanhas de brisa.

Arrasto a eucaristia dos assuntos banais
e seguro a torre diluída das miragens
como quem perambula sonhos
e abrevia passagens rôtas.

(L. F. Calaça | 09/01/2007)

 


ORAÇÃO DAS DUAS ROSAS

Em teus lábios, minha criança, o Sol se deita
atravessando a janela entreaberta de minha boca
no silêncio contemplativo desse jardim-alcova
onde amamos a continuidade dos corpos.

Em teus lábios, rosa branca, encontro a santidade
dos piedosos que sorriem com olhar incerto
nos cílios de teus olhos, em suas pernas,
num encontro clandestino e sem rosário.

Em teu corpo, rosa trêmula, guardo o toque
na dança leve dos dedos e dos pés serenos
que caminham como plumas por meu corpo frio,
e se aquece o peito em dócil clama ressonante.

E do coração se desprende uma rosa cálida
envolvendo em êxtase o corpo, cálice sagrado.

(L. F. Calaça | 09/01/2007)


Segunda-feira, Janeiro 08, 2007
 
LARÁPIO

Corro no contorno deixando para traz despertador e radar.
Corro ao lado de um noviço com sabor de nectarina.
Corro explodindo as veias do pescoço, pulsando o corpo argila.
Corro atravessando a navalha na carne despida e sangue.

E os chicotes retalham sonhos a três travesseiros encantados
E as vidraças bandoleiam nas curvas curtas de minhas pernas
E a Lua penetra o véu dos amantes sofocando na última castanhola.

Corro arrastando as ventanias com meus rastros troteiros
Corro na areia milenar das ampulhetas ovais do zodíaco
como um orixá numa dança branca de orquídeas-dálias.

E as palavras gotejam do pulso ao incurso invertido.

(L. F. Calaça | 07/01/2007)

Sábado, Janeiro 06, 2007
 
ROBERTO PIVA LÊ SEUS POEMAS


Roberto Piva

Sou suspeito pra falar de Piva. Vejam por vocês mesmos.

Beijão.

L. F. Calaça.

LINK: http://www.youtube.com/watch?v=FAS4PciP35k&mode=related&search=

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007
 

Murilo Mendes

CANTIGA DE MALAZARTE

Murílo Mendes

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.



Quarta-feira, Janeiro 03, 2007
 
FILM - Samuel Beckett

Uma de minhas primeiras descobertas logo que criei o RUÍNAS ALADAS foi Samuel Beckett, numa peça que assisti no TCA (Teatro Castro Alves), chamada "Comédia do Fim", dirigida por Luiz Marfuz, em 2003. Depois dessa peça, virei um fâ afixionado por este dramaturgo do teatro do absurto, e tudo a ele relacionado passou a me interessar.

Hoje encontrei no YouTube o "FILM", uma produção cinematográfica realizada a partir de um roteiro do autor, tendo como ator principal Buster Keaton.(Conheci Buster Keaton através de cenas de seus filmes presentes em "OS SONHADORES", de Bertolucci, filme e diretor que também devoto minha admiração cinéfica).

Deixo aqui a dica e os links para essa pérola do cinema e do teatro do absurdo de Samuel Beckett. Espero que gostem.

Samuel Beckett - Silent 1 Buster Keaton last Film : http://www.youtube.com/watch?v=IVC4ibYSb3I
Samuel Beckett - Silent 2 Buster Keaton last Film : http://www.youtube.com/watch?v=TaLkts8fnnE&mode=related&search=


Film, Samuel Beckett

Mais informações e imagens do "FILM" em: http://www.samuelbeckett.it/cinema.htm

Terça-feira, Janeiro 02, 2007
 
RECORTE

Tenho sonhos abortados na praia, como veleiros delirantes
como silêncios que deixam um rastro invisível dos relógios
debruçando canções sem fim, perdendo as horas quase mortas.

Meus olhos ressaqueados, perde água em correnteza-sangue
num som acústico de revoada em chamas. Pedido de socorro.
Alados os pedaços que se rompem da pele-corpo-espuma.

E as luzes se prendem na cidade sonâmbula, pedindo passagem
e pedágio para amores sem rosto, sem línguas, sem contorno.
Sou amor em tempo de quimera amarelada. Foto e mofo.

Pelegrino das noites insones, risco sombras no aparador.

(L. F. Calaça | 02/01/2006)

Segunda-feira, Janeiro 01, 2007
 
POEMA INCOMPLETO

A primeira noite do primeiro ano
como se as coisas estivessem paradas
amordaçadas sem destino possível
desejando os rastros segmentados
no sentir através das vibrações.

(Não sei se concluo nada além desse delírio
como canção sem partida ou regresso
delineando linhas fractais, mistérios azuis
de um dia refeito de avesso e contemplação)

Parte e pedaço num todo sem porvir.

(L. F. Calaça | 01/01/2007)


Domingo, Dezembro 31, 2006
 
~~ A D E U S ~ 2 0 0 6! ~~


Olá pessoal.

Estou começando o ano de 2007 tarológico.

O RUÍNAS ALADAS está sendo interditado por falta de espaço. A partir de de agora deixarei meus escritosaqui, n'O ENFORCADO (sem nenhuma relação com Sadan Hussen, viu gente!) - posto que os 10Mb de espaço desse blog se esgotou. Não é a toa, né?! Lá se vão 3 anos de RUÍNAS ALADAS! O blog permanecerá ativado, ao menos até que o Blogger.com resolva deletar por falta de atualizações.

Desejo um grande abraço aos leitores do RUINAS ALADAS e que sejam bem vindo neste novo sítio, talvez um pouco mais "clean", um pouco mais viajante, mas tudo bem. Esse continua sendo o endereço do RUÍNAS ALADAS, para os arqueólogos e saudosistas:

WWW.RUINAS_ALADAS.COM.BR

Grande Beijo e feliz 2007.

L. F. Calaça

~~ 2007, VENHA SEM MUITOS SUSTOS, POR FAVOR! ~~


 

O Enforcado. Tarô de Marselha.

XII. O PENDURADO (O Enforcado)

O Arcano da Fé, da aspiração Espiritual


Um homem está suspenso, pelo pé, de uma trave de madeira que se apóia em duas árvores podadas. Os dois suportes são amarelos e cada um conserva seis tocos da poda, pintados de vermelho; terminam em forquilha, sobre as quais repousa o pau superior. São verdes os dois montículos dos quais nascem as árvores da provação, e nos quais brotam plantas de quatro folhas. A corda curta que suspende o homem desce do centro da barra transversal.
O personagem veste uma jaqueta terminada em saiote marcado por duas meias-luas à direita e à esquerda, que podem ser bolsos. O cinto e o colarinho da jaqueta são brancos, assim como os dez (ou nove) botões - seis acima e quatro (ou três) abaixo da cintura.
A cabeça do Enforcado encontra-se no nível da base das árvores. Suas mãos estão ocultas atrás da cintura. Naturalmente, a perna pela qual está suspenso - a esquerda - permanece esticada, enquanto que a outra está dobrada na altura do joelho, cruzando por trás a perna esquerda.

Significados simbólicos

Abnegação. Aceitação do destino ou do sacrifício.
Provas iniciáticas. Retificação do conhecimento. Gestação.
Exemplo, ensino, lição pública.

Interpretações usuais na cartomancia

Desinteresse, esquecimento de si mesmo. Submissão ao dever, sonhos generosos. Patriotismo, apostolado. Filantropia, entrega a uma causa. Sacrifício pessoal. Idéias voltadas para o futuro. Semente.
Mudança de vida, iniciação, abertura espiritual, sacrifício por algo valioso. Paz interior, nova visão do mundo.
Mental: Possibilidades diversificadas, flutuações. Indica coisas em processo de amadurecimento; não define nem conclui nada.
Emocional: Falta de clareza, indecisão, particularmente no campo afetivo.
Físico: Abandono de algumas coisas, renúncias, projetos duvidosos. Impedimento momentâneo para a ação. Um assunto iniciado é abandonado e só poderá ser resolvido através de uma ajuda. Do ponto de vista da saúde: transtornos circulatórios.
Sentido negativo: Êxito possível, mas parcial, sem satisfação nem prazer, sobretudo em projetos de ordem sentimental.
Reticências, planos ocultos. Resoluções acertadas, mas que não se executam; projetos abortados; plano bem concebido que fica na teoria. Promessas não cumpridas, amor não correspondido.
Os bons sentimentos serão utilizados para maus empreendimentos. Impotência. Perdas. Auto-renúncia, passividade.

História e iconografia

Em 1591 - tomando como testemunho a História Eclesiástica de Eusébio - Galônio descreveu as torturas sofridas pelos mártires dos primeiros séculos da cristandade. "As mulheres cristãs - escreve - eram freqüentemente suspensas pelo pé durante todo um dia, e os algozes faziam de tal modo que suas partes mais íntimas ficavam a descoberto, de maneira a mostrar o maior desprezo possível à santa religião de Cristo".
A suspensão pelo pé foi amplamente executada pelos supliciadores romanos e há testemunhos também de vítimas medievais. Uma canção de gesta do século XIII informa que este castigo foi aplicado a um trovador por um dos duques de Brabante, quando este o surpreendeu em diálogo mais que musical com a duquesa.
Mas o enforcamento pelo pescoço, mortal, tem histórias mais remotas e, no caso de Judas, trata-se de um gesto auto-imposto na sequência do sacrifício que fez para que se cumprissem as profecias.
Uma tradição que vem dos primórdios da Igreja cristã é a de que um outro apóstolo, Pedro, teria insistido em ser crucificado de cabeça para baixo por não se sentir digno de reproduzir o suplício de Cristo.
No que diz respeito às artes gráficas, há inúmeras miniaturas dos séculos XIII e XIV com reproduções de santos e mártires pregados pelos pés a uma barra elevada. Mas é preciso chegar aos fins do século XV para descobrir uma imagem análoga à do Enforcado do Tarô.
De outro ponto de vista, pode-se dizer que a Antigüidade nos deixou inúmeros testemunhos de figuras invertidas que em nenhum caso poderiam ser ligadas ao suplício. Esta postura é adotada com freqüência por divindades nuas assírio-babilônicas, nos cilindros de argila que reproduzem cenas de conjunto.
É possível imaginar que as deusas nesta posição significavam outra coisa: propunham uma leitura ritual que, agora, parece absurda ou incompreensível.
Alguns estudiosos lembram, a esse respeito, os ensinamentos que atribuem ao homem o papel de estabelecer a ligação entre o Céu e a Terra, numa zona que o preserva de influências e contaminações. "Toda suspensão no espaço participa deste isolamento místico, sem dúvida relacionado à idéia de levitação e de vôo onírico".
Muitas lendas de origens diversas atribuem aos enforcados características mágicas e os dotam de vidência e mediunidade.
Para Wirth, preocupado com o simbolismo iniciático, o protagonista do Arcano XII é homólogo ao do Prestidigitador (I), já que também inicia uma das vias, mas partindo do extremo oposto do caminho. Neste sentido o vê como o princípio de intuição pelo qual o ser humano pode alcançar um resplendor de divindade: como colaborador da grande obra que mudará para o bem a carga negativa do universo; como a vítima sacrifical para a redenção.
Atribuem-se ainda ao arcano virtudes divinatórias e telepáticas; é com freqüência relacionado com a arte e a utopia. Alguns o vêem como arcano possessivo, mas é necessário compreendê-lo num sentido puramente idealista, como uma manifestação de amor que carece de objeto individual (amor ao próximo).
Uma especulação interessante pode ser feita partir de seu número na ordem do Tarô, que o relaciona ao décimo-segundo signo do zodíacao, Peixes ou ainda ao conjunto do simbolismo zodiacal e ao dodecadenário: os doze signos e os doze meses do ano, os doze apóstolos, as doze tribos de Israel...

FONTE: ARCANOS MAIORES - As 22 cartas. Compilação de Constantino K. Riemma. In: http://www.clubedotaro.com.br/site/m32_12_pendurado.asp